sábado, 25 de abril de 2020

Você pergunta, o blog responde: Qual é a diferença de “fè” e “fèt”?


Ótima pergunta. Nem sei por que ainda não tínhamos falado disso aqui. Então vamos lá...
         Antes, será necessário entender um processo que acontece com os verbos. Todos eles são termos que fazem EXIGÊNCIAS. Isso mesmo, eles exigem que outras palavras os acompanhem. Um verbo como VER, por exemplo, exige um SUJEITO (quem vê) e um OBJETO ou COMPLEMENTO (quem ou o que é visto). Assim é que temos uma frase como “João viu Maria”.
         Todo sujeito e todo objeto recebem algo que se chama PAPEL TEMÁTICO. O sujeito e o objeto sempre terão um papel em relação ao verbo, e esse papel muda de verbo para verbo. Um verbo como VER tem o sujeito que será o EXPERIENCIADOR (quem tem a experiência de ver) e um TEMA (a coisa que é vista).
[João]sujeito-EXPERIENCIADOR VIU [Maria]objeto-TEMA
         Agora, vamos nos concentrar na comparação dos seguintes exemplos:

João cortou a árvore
João cortou o cabelo

         As duas frases-exemplo têm como sujeito “João”. Mas qual é o papel temático de “João” em cada uma delas? Na primeira “João” recebe o papel temático de AGENTE porque ele faz a ação de ‘cortar a árvore’. No segundo exemplo, no entanto, “João” recebe o papel temático de PACIENTE, porque não foi ele que cortou o cabelo dele (até poderia, mas não foi rsrs) e ele recebe a ação.
         Que outros verbos exigem agentes? Pense em QUEBRAR. Alguém quebra alguma coisa. “João quebrou o vidro da janela”, “João” é o AGENTE de “quebrar”. Mas e se dissermos “O vidro da janela quebrou”, será que a janela fez a ação de quebrar? Não! Na verdade, alguém quebrou a janela.
         Não estamos aqui para entender todos os detalhes da atribuição de papéis temáticos pelos verbos, mas com as informações que temos, já é possível entender o básico que precisamos para diferenciar “fè” de “fèt”.
         FÈ é o verbo “fazer” e seu sujeito é sempre o AGENTE da ação.

[Guerline]AGENTE te FÈ yon gato = Guerline fez um bolo

         O sujeito “Guerline” recebe o papel temático de AGENTE, ela é que fez alguma coisa.
         Já FÈT é como uma variação do verbo “fazer” e o sujeito de FÈT recebe sempre o papel temático de PACIENTE.

[Gato sa a]PACIENTE FÈT pa Guerline = Este bolo foi feito pela Guerline
[Reyinyon an]PACIENTE FÈT ak patisipasyon nou = A reunião é/foi feita com a participação de vocês

         Veja que ao traduzir para o português, frases com “fèt” geralmente vão para a voz passiva (ex.: com a construções SER + particípio).

         FÈT também corresponde ao verbo “nascer”.

Ki kote l te fèt? = Onde ele nasceu?

         Não confunda o FÈT que explicamos aqui com o substantivo “fèt” que significa “festa”.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Como se diz “futuro” em crioulo haitiano?


         A palavra “futuro” pode ser usada como um substantivo ou como um adjetivo.

         O substantivo “futuro” pode ser definido como “tempo que se segue ao presente” ou “conjunto de fatos relacionados a um tempo que há de vir; destino, sorte.” Quando falamos sobre o futuro devemos usar a palavra avni ou lavni em crioulo haitiano. Não importa a forma, qualquer uma das duas está valendo!

Que futuro você quer para seu filho? = Ki avni ou vle pou pitit ou?

Vocês estão se preparando para o futuro? Èske n ap prepare nou pou lavni?

Você precisa planejar seu futuro = Ou bezwen planifye avni w

         A palavra “alavni” corresponde a “no futuro”, “futuramente”.

Quem sabe o que vai acontecer no futuro? = Kiyès ki konnen sa k pral pase alavni?

         Há também, no crioulo haitiano, a palavra fiti. Quando usá-la? Fiti é usado em um dos seguintes casos:

1)     Ao se referir ao “futuro” como tempo verbal, ou seja, ao falar sobre a gramática de uma língua.

Hoje vamos aprender a conjugar os verbos no futuro. = Jodi a nou pral aprann fason pou n konjige vèb yo nan fiti

2)    É possível que fiti apareça também como adjetivo, como em “futuro marido”, “futura esposa”, “geração futura” etc. Este uso é pouco comum, mas é possível.

Bons estudos a todos! Babay!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Curso de crioulo haitiano na melhor Universidade da América Latina



Nos dias 3, 4, 5 e 6 de fevereiro foi realizado o curso Noções introdutórias da gramática do crioulo haitiano no prédio de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, FFLCH-USP.

O curso foi oferecido pelo Serviço de Cultura e Extensão Universitária da FFLCH-USP. O professor Bruno Pinto Silva, autor do blog Aprann Kreyòl Ayisyen e pesquisador do Departamento de Linguística da FFLCH-USP, ministrou o curso.

No primeiro dia do curso foram abordados temas como a história do país, da língua, e da cultura haitiana. Ao final do primeiro dia foram ensinadas as expressões mais comuns para cumprimentar, agradecer, e outras frases prontas comuns usadas ao se apresentar a alguém.

No segundo dia foram abordados alguns aspectos da pronúncia do crioulo haitiano. Deu-se ênfase a sons que são mais desafiadores para brasileiros. Também foram apresentados alguns fenômenos que podem ocorrer na pronúncia de brasileiros devido a diferenças na constituição da sílaba fonológica no crioulo haitiano e no português brasileiro.

No terceiro dia falou-se a respeito de aspectos da morfossintaxe do crioulo haitiano. Um dos temas abordados foi o morfema {la}, que é o artigo definido (singular) do crioulo haitiano. Viu-se como o morfema {la} se transforma em la, lan, nan, a, an dependendo do contexto fonético. Após entender as regras morfológicas por detrás do artigo {la}, mostrou-se como colocá-lo corretamente em um sintagma nominal.

No quarto e último dia foram exploradas questões de sintaxe, ou seja, a organização de uma sentença no crioulo haitiano. Foi possível fazer um contraste entre as estruturas do português e do crioulo haitiano, o que ajudou a ver em que aspectos as duas línguas diferem e como os alunos podem dar mais atenção a esses detalhes. Depois prosseguiu-se com a exploração da marcação de tempo e aspecto nos verbos do crioulo haitiano. Foram explorados também traços semânticos específicos de alguns verbos (e sintagmas verbais) que têm relação direta com a interpretação de tempo e aspecto no crioulo.

Muito do que foi discuto no curso já está disponível aqui no blog, seja por meio de artigos ou de cursos (veja a página Cursos). Alguns dos detalhes compartilhados presencialmente em breve se tornarão artigos aqui também, ou cursos.

Abaixo seguem fotos da turma!





Créditos das fotos: Ágatha Coloniese (Instagram: @fiandeyo)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

A preposição PA


Não param de chegar pedidos para que eu fale sobre quando PA é usado fora do contexto de negação. As pessoas geralmente perguntam qual é o outro sentido de PA. Aí é que se enganam. PA (marcador de negação) e PA (preposição) são duas palavras diferentes, não uma palavra com dois sentidos.

Uma palavra que tem vários sentidos é uma palavra polissêmica, o que não é o caso de PA. O caso de PA é de homonímia. O marcador de negação PA e a preposição PA são palavras homônimas. Palavras homônimas têm a mesma pronúncia, mas são escritas de maneiras distintas, como sessão, cessão, seção. Já no caso de PA, temos homônimos homógrafos, ou seja, além de terem pronúncias idênticas, são também grafadas (escritas) de maneira idêntica. O que nos esclarece que estas são duas palavras diferentes é a etimologia, isto é, a história da palavra.

PA como marcador de negação vem do francês pas, que também é lido [pa], apesar de haver um s na escrita. Esse s só é lido em contextos específicos no francês. A ortografia (as regras de escrita) do crioulo haitiano não aceitam essas letras que não são lidas. O princípio no crioulo haitiano é que a representação escrita da palavra deve ser bem semelhante à pronúncia, se se escrevesse pas, como em francês, seria necessário pronunciar esse s, e não é isso o que acontece. É assim que temos PA em crioulo, sem o s, simplesmente porque ele não é lido em francês, língua da qual vem o PA do crioulo.

PA como preposição vem do francês par, que também é uma preposição. No contato da língua francesa com as várias línguas africanas faladas pelos escravizados levados ao Haiti, resultou a língua que você está aprendendo, o crioulo haitiano. Dentre vários aspectos resultantes desse contato de línguas, a língua que surgiu, o crioulo haitiano, ganhou uma estrutura própria, que ora difere e ora se assemelha tanto ao francês quanto às línguas africanas que participaram de sua formação. Uma questão estrutural em que o crioulo haitiano difere do francês é o fato de que o crioulo haitiano não aceita /R/ no final de sílabas. É por isso que par virou PA em crioulo.

O resultado é que duas palavras diferentes em francês, pas e par, passaram a ter a mesma forma e a mesma pronúncia em crioulo haitiano. Aqui no blog já se falou do marcador de negação PA, você pode ver clicando aqui. Já falamos também a respeito da preposição POU, que você também pode ver clicando aqui. Hoje falaremos da preposição PA.

Veja as funções da preposição PA, e alguns exemplos:

  • Exprimir o AGENTE de uma ação, ou seja, aquele que a faz. Aqui a preposição equivale à preposição por.
Liv sa te ekri pa Pòl (Este livro foi escrito pelo Paulo)

  • Exprimir FREQUÊNCIA. Também equivale à preposição por.
De fwa pa semèn (duas vezes por semana) 

De fwa pa jou (duas vezes por dia)

  • Exprimir MULTIPLICAÇÃO e DIVISÃO
X miltipliye pa X (X multiplicado por X) 

X divize pa X (X dividido por X) 

  • Para exprimir DISTRIBUIÇÃO
De pa de (de dois em dois) 

  • Em algumas expressões fixas 

Pa egzanp (por exemplo) 

Pa kè (De cor) Ex.: Li konnen mizik sa a pa kè (ele sabe essa música de cor)

Pa konsekan (por conseguinte, portanto) 

Pa aza (por acaso) 

  • Como expressão enfática de posse
Zanmi pa m, kòman ou ye? (meu amigo, como você está?) 

Desta última construção já falamos em outra coisa aqui no blog, você ler mais clicando aqui


Por hoje é só. Espero que vocês consigam praticar agora o uso da preposição PA. Babay!

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

FALAR e DIZER - uma questão de telicidade


         Já passou da hora de abordarmos a diferença de falar e dizer. Graças aos leitores do blog que sempre mandam suas dúvidas, hoje vamos dar atenção a essa questão!

         Em português, falar e dizer muitas vezes podem aparecer no mesmo contexto e terão o mesmo sentido. Veja os exemplos (1) e (2).

(1)           Ele disse que quer aprender crioulo
(2)                       Ele falou que quer aprender crioulo

Em outros lugares não seria possível fazer essa troca. Veja os exemplos (3) e (4)

(3)                       Ele fala português comigo
(4)                       * Ele diz português comigo

Lembre-se de que o asterisco (*) é usado para marcar que a construção em questão não existe na língua. O exemplo (2) seria marcado com um asterisco em crioulo haitiano, pois não se pode falar que quer aprender crioulo em crioulo, só se pode dizer isso.

Falar em crioulo é pale. Dizer é di. Veja os exemplos abaixo:

(5)           Li te di li vle aprann kreyòl (tradução do exemplo (1))
(6)                       * Li te pale li vle aprann kreyòl (tradução literal do exemplo (2))

Só é possível o exemplo (5), o exemplo (6) não é possível em crioulo haitiano. Por quê? Agora chegou a parte legal! Vamos entender um pouco sobre telicidade. Vocês sabem que eu não resisto a usar nomes estranhos, né?

Pense nos seguintes verbos: fechar e cantar. São dois verbos que indicam ações bem diferentes, é verdade. Compare “fechar a porta” com “cantar uma música”. Consegue reparar que “fechar a porta” é uma ação que acontece e, pronto, acaba?! Nós podemos raciocinar da seguinte maneira: com o verbo fechar é possível visualizar o fim da ação.

Isso é bem diferente do que acontece com “cantar uma música”. Logicamente, a ação de cantar uma hora vai ter um fim, mas não é a mesma impressão que temos com verbos que indicam eventos tão pontuais como abrir, fechar e outros.

Verbos que indicam eventos tão pontuais (é feito e acaba, visualizamos o fim do evento), como nascer, morrer, fechar, abrir, são télicos. Já verbos como cantar, brincar, pensar, são atélicos.

Não vamos entrar em todos os detalhes técnicos, mas a telicidade (ser télico ou atélico) é uma propriedade não só do verbo, mas de todo o sintagma verbal, que é um conjunto formado pelo [VERBO + COMPLEMENTO]. É por isso que sempre devemos olhar para o todo. Desenhar um círculo é um evento télico. Você desenha e, pronto, acaba. Desenhar círculos é atélico. Você desenha, desenha, desenha... um dia acaba, mas a impressão do fim desse evento não é tão visível, por assim dizer.

Voltando à nossa questão central, podemos concluir que dizer é télico, e falar é atélico. A gente diz algo e pronto. A gente passa uma informação específica e acabou. Algo bem pontual. Tal pessoa disse tal coisa. Pronto. No caso do verbo falar, a gente fala uma língua, que dá a noção de saber uma língua. Mas também a gente fala sobre coisas diversas. A gente fala sobre o Haiti, por exemplo. A ação de falar sobre o Haiti envolve uma fala com detalhes sobre o país, a cultura desse país, a língua desse país. Algo que um dia acaba, é verdade, mas não é tão breve quanto dizer que o Haiti tem o crioulo como língua oficial. Isso se diz e pronto. Acabou.

De modo geral, se na frase em português for possível trocar o verbo falar por dizer, deve-se usar o verbo dizer (di) no crioulo haitiano. Essa é uma forma rápida de saber o que usar. Mas não se esqueça da questão da telicidade.

Espero que depois de ter lido este artigo você não diga: o Bruno falou, falou e não disse nada.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

LADAN — entenda melhor esta preposição


Olá! Vamos entender melhor a preposição LADAN? Mas... “landan” não seria um advérbio que corresponde a “dentro”? Mais ou menos. Hoje vamos entender isso melhor.
         Ladan é uma preposição que pode dar a ideia de “dentro”, ou “nele, nela” (em + ele, ela). A verdade é que não há como relacionar “ladan” tão diretamente a algo no português.
         O que nos interessa saber é que ladan é uma preposição, e sempre devemos usar um pronome de 3ª pessoa (plural ou singular) após esta preposição. Isso significa que sempre teremos “ladan l” ou “ladan yo”. Por quê? Simples: usamos “ladan” quando estamos nos referindo a algo que já foi mencionado. Veja as frases abaixo:

(1)
bwat sa ai  gen     yon       kado         ladan li
esta caixa   tem     um        presente   dentro (dela)
Há um presente dentro desta caixa

         O sentido de “dentro” sempre está presente, mas nem sempre a palavra “dentro” fará sentido na tradução:

(2)
Mwen te        nan   yon   reyinyoni e    m  te        patisipe      ladan li
Eu       PASS  em    uma  reunião    e    eu  PASS  participar   dela
Eu estava em uma reunião e participei dela

(3)
Bib lai     gen   istwa        Jezi           ladan li
a Bíblia   tem   história    Jesus        nela
A Bíblia tem a história de Jesus (nela/dentro dela)

           Veja que o ponto em questão é: para usar “ladan” é necessário estar retomando algum outro termo, ou trecho, que já foi mencionado. Mesmo que a menção tenha sido feita em outra frase, ou feita por outra pessoa que esteja participando da conversa. E se quisermos mudar a ordem da frase-exemplo (1) e dizer: “Dentro desta caixa há um presente”? Não será possível usar “ladan”, será necessário dizer “anndan” que é o verdadeiro advérbio dentro.

(4)
anndan   bwat sa a      gen   yon  kado
dentro    esta caixa     tem   um  presente
Dentro desta caixa há um presente

           Ladan yo aparecerá quando se tratar de plural. Veja (5).

(5)
bwat sa yoi    genyen   anpil     kado             ladan yoi
estas caixas   têm         muitos  presentes     nelas/dentro delas
Há muitos presentes dentro dessas caixas

           No próximo artigo entenderemos melhor a preposição LAKAY!


Observações:
O “i” subscrito (i) indica que os dois termos têm ligação, ele é mencionado uma primeira vez e é retomado com um pronome mais à frente.
A abreviatura PASS aqui faz referência a PASSADO.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Você conhece as preposições “vè” e "anvè"?

A preposição “vè”, no crioulo haitiano, vem do francês vers.

Podemos associar a preposição “vè” à locução prepositiva “por volta de” em português. Assim, o sentido de “vè” é de estimativa, em especial quando falamos de uma hora específica ou de uma data. Veja abaixo duas frases-exemplo.

(1) M ap retounen uitè diswa (Vou voltar lá pelas/por volta das oito da noite)

(2) Li te fèt premye oktòb (Ele nasceu por volta de primeiro de outubro)

A preposição também aparece combinada à preposição an, formando “anvè”, que geralmente corresponde a “para com” ou “em relação a” em português. Veja no exemplo (3).

(3) Bondye bon anvè tout moun (Deus é bom para com todos)

Não confunda a preposição com dois outros substantivos homônimos. , em outros contextos, tem os seguintes significados:

1: recipiente geralmente cilíndrico usado para consumo de líquidos, copo;

2: designação comum e imprecisa a todos os animais alongados de corpo mole, verme.

Tem dúvidas de crioulo haitiano?! Não deixe de escrever para nós ou deixar suas dúvidas nos comentários!

Estamos de volta, mas em outra plataforma!

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