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quinta-feira, 17 de março de 2022

Construções com o verbo BAY ‘dar’ em crioulo haitiano – parte 2

Agora que já entendemos a estrutura de uma frase com o verbo BAY ‘dar’, é preciso entender algumas questões que estão relacionadas à forma desse verbo. Como assim? Vamos lá! 

O verbo ‘bay’ passará por alterações e poderá aparecer como BA ou BAN. Para o fim específico dessa postagem, que é ensinar sobre o uso desse verbo a estudantes do idioma, vamos deixar de lado as razões dessas mudanças. Vamos simplesmente ver como ela é, como usar cada uma das formas.

O fator determinante para a mudança de BAY para BA ou BAN é o pronome que serve de complemento (o objeto) na sentença. Em outras palavras, é o pronome que vem logo após o verbo e que representa a pessoa a quem se está dando algo. No artigo anterior foi usada a sentença “O pai deu um presente para a filha” que se traduz para o crioulo haitiano como “Papa a te bay piti fi l la yon kado”. Veja que depois do verbo BAY temos a pessoa que recebe o que foi dado. Nesse caso específico, temos [pitit fi l la] ‘a filha dele’ e não um pronome. Quando não temos um pronome após o verbo BAY, sua forma permanece inalterada. Se, no entanto, fôssemos mudar o trecho ‘pitit fi l la’ para ‘li’ (ela), teríamos a alteração do verbo para BA. Como ficaria então? Assim: “Papa a te ba l yon kado” (tradução: O pai deu um presente para ela).

Nós já entendemos como funciona então essa questão da mudança da forma do verbo BAY. Resta explicar os contextos específicos, e você verá que a coisa não é tão complicada assim, é preciso apenas se acostumar por meio da prática. Veja as regras abaixo.

Quando o complemento do verbo não for um pronome, a forma do verbo permanece na BAY;
Quando o complemento do verbo for um dos seguintes pronomes, a forma do verbo será alterada para BA: ou/w, li/l, yo;
Quando o complemento do verbo for um dos seguintes pronomes, a forma do verbo será alterada para BAN: mwen/m, nou/n.

Repare que o pronome yo não se reduz para y em posição de complemento. Isso só pode acontecer em alguns casos específicos em que, na verdade, uma oração é complemento de um verbo. Mas disso falaremos em algum outro momento.

Você acha que conseguiu entender bem? É só lembrar das combinações: ban mwen, ba ou, ba li, ban nou, ba yo. Se quiser, dê uma revisada no artigo dos pronomes pessoais, clicando aqui. Deixe seu comentário sobre esse post, e qualquer dúvida que tenha. Só uma última coisa: esse assunto não acaba por aqui. Aguardem mais uma parte dele!

Bruno Pinto Silva
Universidade de São Paulo

sábado, 12 de março de 2022

Construções com o verbo BAY ‘dar’ em crioulo haitiano – parte 1

As construções com o verbo BAY ‘dar’ ainda são bastante trabalhosas para a maioria dos falantes brasileiros de crioulo haitiano. Por quê? A resposta simples é que as construções com esse verbo são bastante diferentes, visto que o crioulo haitiano exige uma estrutura bem mais rígida que a do português. O que precisamos entender é que esse assunto merece sua atenção, do contrário você continuará usando construções que não existem e atrapalham sua comunicação em crioulo haitiano, mesmo que, por cortesia, um haitiano lhe diga que não atrapalha em nada.

Colocando tudo isso, faço um convite a você: vamos estudar o uso do verbo BAY ‘dar’ juntos? Estudar exige que você separe um tempo para se dedicar exclusivamente à compreensão do tema de interesse, e depois será necessário que você dedique algum tempo à prática dessas estruturas que vamos aprender, do contrário você não terá êxito no seu empreendimento de aprender o crioulo haitiano.

Se eu pedisse que você fizesse uma frase bem simples com o verbo BAY ‘dar’, você talvez formulasse algo como “O pai deu um presente para a filha”. Simples, não é? Acontece que em crioulo haitiano a estrutura dessa frase não é assim. Isso quer dizer que não basta que você procure num dicionário como dizer cada uma dessas palavras e as colocar na mesma ordem em que aparecem no português. Sendo assim, vamos lá aprender qual é a estrutura do crioulo haitiano.

No crioulo haitiano é preciso que você identifique primeiro a pessoa que recebe aquilo que é dado (pode ser que não seja uma pessoa, pode ser algo inanimado também). Só depois você vai poder dizer qual é a coisa que é dada. É algo como se disséssemos “O pai deu para a filha um presente”. Você consegue identificar que [para a filha] é a pessoa que recebe e [um presente] a coisa dada, não consegue? Então, é isso. Fizemos a inversão e está pronto. Mas, tem um detalhe do qual não podemos esquecer, e vamos falar dele agora.

Em português, ao identificarmos a pessoa que recebe aquilo que é dado, usamos a preposição PARA ou A. Nós "damos algo PARA ALGUÉM" ou "damos PARA ALGUÉM algo". Acontece que em crioulo haitiano não é assim. A preposição não é usada em crioulo haitiano! Você deve inserir diretamente o ‘destinatário’, ou seja, aquele que recebe o que é dado, sem preposição alguma. Como ficaria então aquela frase que estamos usando de exemplo? Isso mesmo: “O pai deu filha um presente”. Diferente, não é? Pois é, as línguas são assim, elas ora diferem ora se assemelham umas às outras em diversos aspectos. O que é preciso enfatizar é que essa é a única opção em crioulo haitiano para frase com o verbo BAY ‘dar’. Por favor, se esforce para praticar essa estrutura.

Afinal, como ficaria a frase traduzida para o crioulo haitiano? Ficará assim: “Papa a te bay pitit fi l la yon kado”. Abaixo você pode visualizar a estrutura literal, e observar o que acabamos de estudar.


[Papa a] [te bay] [pitit fi l la] [yon kado]

[Pai o] [PASSADO dar] [filha dele a] [um presente]

Tradução: “O pai deu um presente para a filha”


Agora, gostaria que você compartilhasse nos comentários uma frase com o verbo BAY ‘dar’ para vermos se você entendeu bem, o que você acha? Ainda existem outras particularidades sobre esse verbo que precisam ser esclarecidas. Na sequência desse artigo, vai ser possível que a gente continue vendo mais exemplos dessas estruturas. Até aqui nos concentramos em um aspecto: o da ordem dos elementos que fazem parte das construções com o verbo BAY ‘dar’. Ainda resta ver questões sobre a forma do verbo BAY ‘dar’ em crioulo haitiano, que poderá ser mudada para BA ou BAN, a depender do contexto linguístico. Aguardem! Enquanto o próximo artigo não chega, nos diga o que você achou dessa matéria. Deixe seu comentário, sempre ficamos muito felizes em poder interagir com você!

Bruno Pinto Silva
Universidade de São Paulo

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Sobre o crioulo haitiano (não) ser uma língua pro-drop


         Opa! Lá vem o Bruno e seus nomes difíceis. Não é culpa minha, é da Linguística. Mas vocês sabem, eu até falo uns nomes difíceis, mas sempre explico depois. Vamos a mais um detalhe do crioulo haitiano.

         Faz exatamente duas horas que recebi um comentário no post sobre verbos pronominais. Ali, parece que uma frase específica chamou a atenção da leitora. É a frase “Li enpòtan pou w debarase tèt ou anba tristès” (é importante que você se livre da tristeza). Ora, o que causou dúvida é o fato de a frase começar com “li” e não haver, na tradução, o pronome “ele”. Li não é ele?! Dúvida interessantíssima, riquíssima.

         Em primeiro lugar é bom esclarecer que o crioulo haitiano é uma língua não pro-drop. Ué, o que é isso?! Línguas pro-drop são línguas que permitem, por exemplo, usar o verbo sem o sujeito expresso. Como assim? Se você diz “comprei um livro ontem” sabemos que o sujeito é “eu” porque a terminação do verbo (-ei) nos indica isso, mas o pronome “eu” não está lá. É possível também dizer “eu comprei um livro ontem” e deixar o sujeito lá no lugarzinho dele. É por isso que dizemos que o português é uma língua pro-drop, ou parcialmente pro-drop, mas não queremos entrar na questão do parcialmente agora, afinal aqui estamos mais concentrados no crioulo, o português já sabemos naturalmente, mesmo que as regras não sejam claras a nós.

         Outras línguas, no entanto, são não pro-drop, e, portanto, EXIGEM que o verbo tenha seu sujeito explícito na oração. Alguns exemplos são o inglês, o francês e o... kreyòl ayisyen! Mesmo com verbos impessoais, como verbos de fenômeno da natureza, é necessário haver um sujeito. Pense no exemplo (1).

(1)             Choveu ontem

Ora, em português o verbo “chover” rejeita qualquer pronome, é impossível algo como *ele choveu ontem. Nas línguas que exigem sujeito, no entanto, o espaço antes do verbo, ou seja, o lugar do sujeito, obrigatoriamente deve estar preenchido. O inglês usa o pronome “it” para isso, e recebe até um nome especial — “dummy it”. Assim, em inglês dizemos como em (2).

(2)            It rained yesterday (algo como: ‘ele’ choveu ontem)

Em inglês não se poderia começar a sentença (2) com o verbo diretamente, como em português. O mesmo acontece com o crioulo. O sujeito precisa estar lá, bem evidente antes do verbo. É por isso que para dizer “está chovendo” dizemos em crioulo algo como “ele está chovendo”, veja em (3)

(3)            L ap fè lapli

O “ele”, nesse caso, está aí com um sentido meio que vazio, só para preencher um espaço. Já para dizer “é importante que...” o verbo SER, que é SE em crioulo, não aparece. (Veja a série de matérias sobre o uso do verbo SER e ESTAR) No entanto, o espaço do sujeito deve ser preenchido. É por isso que usamos LI ou SA. Então dizemos “Li enpòtan...” ou “Sa enpòtan...”.

Portanto, é muito importante que você pratique bastante! (Li/Sa enpòtan pou w pratike anpil!)

Acho que até aqui já deu, não é? Reflita nesses conceitos e tente observar como esse tipo de construção se comporta no crioulo e no português! Até mais!

P.S.: É bom esclarecer que existe uma minoria de verbos em crioulo haitiano que se comportam de maneira diferente, é por isso que com “genyen” e “sanble”, por exemplo, é possível começar a sentença a partir do verbo.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Os artigos definidos e sua colocação no sintagma


         Não é a primeira vez que falamos sobre os artigos definidos. Há tanto a dizer e explicar sobre os artigos definidos que seria possível escrever um livro só sobre esse assunto. Em outubro de 2014, publicamos aqui a matéria Artigos definidos e indefinidos, ali o blog ensinou a empregar os artigos de acordo com a terminação das palavras (a, an, nan, la, lan, yo). Como já sabemos, esses artigos vêm depois das palavras, não antes como na maioria das línguas! Isso por si só já é um detalhe bem interessante!

         De que detalhe sobre os artigos falaremos hoje? Bem, costuma-se ensinar que, como eu mesmo disse acima, os artigos vêm depois das palavras. De que palavras? Das palavras que eles determinam? Sim, e não. Numa frase como O LIVRO QUE EU COMPREI ENSINA CRIOULO, o artigo virá depois da palavra “livro”, né?! Ficando: LIVRO O que eu comprei... Não, não, não. A frase ficará LIVRO QUE EU COMPREI O ENSINA CRIOULO. Meu Deus! O “o” ficou tão longe do substantivo LIVRO! Por quê? Porque o artigo vem no final do sintagma.

         Quem já fez o curso Iniciação ao Crioulo Haitiano – Módulo I, oferecido aqui pelo blog, viu uma matéria em que nos concentramos na identificação dos sintagmas para colocar corretamente os artigos. Mas, afinal, o que são esses “sintagmas”? Não se assuste, a gente fala uns nomes difíceis, mas a gente explica.

         Não é possível falar desse assunto em pouco tempo, mas aqui vamos dar uma breve introdução que lhes será útil na hora de colocar corretamente o artigo numa oração. Uma oração como “o menino comeu o pão” é constituída de sintagmas, que são unidades que funcionam como um conjunto. A frase-modelo que usamos é bem simples, então vamos entender melhor.

         Nessa frase temos a estrutura mais simples, e mais comum, do crioulo, Sujeito + Verbo + Objeto (SVO). Se formos dividir essa oração em sintagmas, faríamos assim:

S[SN[O menino] SV[V[comeu] SN[o pão]]]

Legenda: S = sentença; SN = sintagma nominal; SV = sintagma verbal; V = verbo.

         Tendo identificado que o trecho “o menino” é um conjunto ao qual damos o nome “sintagma nominal”, sabemos que o artigo virá após o substantivo “menino”, a frase, em crioulo, ficará

TIGASON AN TE MANJE PEN AN

         Mas o que dizer de uma oração como a citada no começo que é bem mais complexa?

O LIVRO QUE EU COMPREI ENSINA CRIOULO

         Vimos que a ordem da oração ficará:

LIVRO QUE EU COMPREI O ENSINA CRIOULO

         O artigo fica lá no final do primeiro sintagma nominal da oração = “o livro que eu comprei”. Mas a pergunta que surge é: como identificar os sintagmas? Há várias maneiras. Uma delas é por tentar substituir um trecho da frase com um pronome interrogativo (como, quem, qual, o quê etc.). Tentemos:

O QUE ensina crioulo?

         Notou que todo o trecho “o livro que eu comprei” foi substituído pelo interrogativo? Está identificado um sintagma com função de sujeito, por isso é nominal. O mesmo pode ser feito com o final da oração:

O livro que eu comprei ensina O QUÊ?

         A palavra “crioulo”, que desapareceu, é também um sintagma nominal, com função de objeto nesse caso. Nossa frase com os sintagmas assinalados, ficará assim:

S[SN[O livro que eu comprei] SV[V[ensina] SN[crioulo]]]

         Traduzindo para o crioulo, teremos:

Liv mwen te achte a anseye kreyòl

         Quando não se sabe identificar o sintagma, pode-se cair no erro de colocar o artigo logo após a palavra “liv”, que ficaria algo como *liv la mwen te achte anseye kreyòl.

         Toda a teoria da sintaxe (que estuda a formação das sentenças) é bem complexa, não é possível abranger tudo rapidamente, mas espero que essas informações já ajudem você na hora de colocar o artigo numa frase mais complexa. Faça uns exercícios clicando aqui. Até mais!

OBS: O link para os exercícios ainda não está disponível, mas será colocado em breve.

Estamos de volta, mas em outra plataforma!

  Como estão "zanmigos"? Estamos de volta, mas no Instagram:  https://www.instagram.com/aprendacrioulohaitiano?igsh=MXBkb2JmanRqeG...