quinta-feira, 7 de março de 2019

Será que ASISTE é ASSISTIR?


Vamos falar de Semântica? Essa é a matéria que estuda o significado, para ser bem simplista. E hoje lidaremos com o sentido de ASISTE em comparação com ASSISTIR. Em português, “assistir” pode significar também “dar auxílio”, mas não é desta definição que vamos tratar.
         Antes de entrarmos em detalhes, vou reproduzir abaixo uma conversa que presenciei entre uma brasileira e uma uruguaia alguns anos atrás.

(Uruguaia aparece com um caderno novo)
Brasileira: — Você comprou esse caderno?
Uruguaia: — Não.
Brasileira: — Você ganhou, então?
Uruguaia: — Não.
Brasileira: — Você roubou, então?!
Uruguaia: — Não! De jeito nenhum! Foi o Davi que me deu o caderno!
Brasileira: — Então você ganhou! Por que você não disse quando eu perguntei?
Uruguaia: — Mas eu não ganhei, o Davi me deu!

         O que aconteceu nessa conversa é que o que se entende por “ganhar” no português e no espanhol tem proximidade, mas não é a mesma coisa. Em espanhol, GANHAR implica fazer algum esforço do qual resultará um prêmio. No português, além desse sentido, pode ser simplesmente “receber algo como presente”. Pronto! Duas línguas tão próximas, duas palavras tão parecidas, mas o significado delas na percepção de cada um dos falantes tem aspectos que causam essa grande confusão!
         Isso nos mostra que temos que investigar bem os contextos em que uma determinada palavra pode ser inserida numa língua estrangeira. Veremos que esse é o caso de ASISTE.
         ASSISTIR é um verbo que concorre com verbos como ACOMPANHAR, ou VER em frases do tipo: “Veja/Acompanhe/Assista (a) esse vídeo”. Mas em crioulo (e também em espanhol!) ASISTE implica estar presente, comparecer a um evento. Sim! Isso mesmo que você entendeu: não dizemos ASISTE YON VIDEYO. Em vez disso, dizemos GADE YON VIDEYO, SUIV (ou, swiv) YON VIDEYO.
         Podemos usar ASISTE da seguinte maneira:
(a)     M te asiste yon reyinyon (Assisti/Compareci a uma reunião)
(b)      Li pral asiste yon kongrè (Ele assistirá/comparecerá a um congresso).
Resumindo: usa-se ASISTE que você quer dizer comparecer, estar presente em. Usa-se GADE ou SUIV se você quer pedir que alguém acompanhe um vídeo, por exemplo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

PÈ vs. LAPERÈZ: Você pergunta, o blog responde!


Uma leitora quer saber a diferença entre e laperèz, bem como sua classificação gramatical. Vamos ajudá-la!

         Em primeiro lugar é bom deixar claro que muita confusão na interpretação de algumas palavras se dá pelo fato de comparação de traduções entre línguas (o que é muito perigoso!) e também da comparação do crioulo com o francês. Isso ficará bem claro com as explicações que serão dadas a seguir.

         vem do francês peur, que é o substantivo medo. Laperèz vem do francês peureuse, que é o adjetivo medroso (no feminino, na verdade). Na passagem para o crioulo, passou a ser usado como adjetivo, não mais substantivo. Laperèz, por outro lado passou a ser um substantivo, não mais um adjetivo. Isso mesmo! Uma troca de classes gramaticais interessante, não é? Isto é muito comum no contato de línguas.

         Pensando em português, o equivalente de é “com medo”. Nós não temos um adjetivo que passe a ideia de “o estado em que se sente ansiedade e insegurança por estar cônscio de um perigo”. Para isso, usamos uma locução adjetiva com (preposição) + medo (substantivo), que passa essa ideia. Em crioulo essa ideia está contida na palavra . Por isso, não dizemos *mwen gen pè ou *mwen avèk pè. Dizemos simplesmente: mwen pè (estou com medo).

         laperèz é o substantivo medo. Podemos dizer que alguém gen laperèz (tem medo). Laperèz pode ser definido como “o sentimento de ansiedade e insegurança por estar cônscio de um perigo”.

         Portanto, em determinadas situações o sentimento “medo” (laperèz) pode tomar conta de você. Se isso acontecer, você ficará com medo (), um estado em que você se encontrará em uma situação desagradável.

         A comparação entre línguas tem que ser feita com muito cuidado, mas nesse caso podemos aproveitar de uma boa comparação com a língua inglesa: o adjetivo afraid corresponde ao adjetivo , e ambos correspondem à locução adjetiva com medo, em português. Já laperèz é equivalente ao substantivo fear do inglês, e medo no português.

         Conclusão:

1.      PÈ = com medo (adjetivo)

2.     LAPERÈZ = medo (substantivo)



Mais dúvidas? Já sabem: vocês perguntam, o blog responde!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

NENPÒT não é “não importa”


         Alguns alunos de crioulo haitiano aprenderam que a palavra nenpòt vem do francês n’importe. Isso é verdade, a origem está corretamente explicada.
         Isso não quer dizer que nenpòt signifique não importa. Nenpòt equivale à palavra qualquer (pronome indefinido).
         Em alguns contextos pode ser que qualquer e não importa sejam sinônimos. Mas na maioria das vezes, isso não dá certo. Dê bastante atenção a isso!
         Vamos praticar algumas frases com nenpòt?

Ou ka achte nenpòt ki sa w vle = Você pode comprar o que quiser (=qualquer coisa que quiser)

Ou ka rele m nenpòt ki lè = Você pode me ligar a qualquer hora

Nou ka ale nenpòt ki kote nou vle = Vocês podem ir aonde quiserem (= a qualquer lugar que quiserem)

Èske w dispoze fè nenpòt ki travay yo ba w fè? = Você está disposto a fazer qualquer trabalho que lhe derem?

         Repare que, na grande maioria dos casos, após nenpòt aparecerá ki. Agora vejamos a seguinte frase:

Não importa se você é aluno ou professor, você precisa praticar muito!

         Será que podemos começar com nenpòt? Não! Porque nenpòt não é não importa. Como ficaria essa frase em crioulo então? Uma de várias opções seria dizer “Seja você aluno, seja professor...” Para isso podemos usar “kit... kit...” que se assemelha ao nosso uso do “seja... seja...”

Kit ou se yon elèv kit ou se yon pwofesè, ou bezwen pratike anpil!

Babay!

sábado, 5 de janeiro de 2019

Comparativo de Superioridade em crioulo haitiano

Vejamos algumas estruturas para comparações em crioulo haitiano. O X1 representa a pessoa/coisa que tem algo a mais em relação a outra, que é representada por X2. O que está destacado em negrito são os termos que usamos para realizar a comparação. A letra V corresponde a Verbo, e Adj refere-se a Adjetivo.
São essas as estruturas possíveis:
(1) X1 pi Adj pase X2
(2) X1 V (plis) pase X2
(3) X1 pi Adj ke X2
(4) X1 V plis ke X2
Vamos exemplificar cada estrutura, começando por (1).

(1) X1 pi Adj pase X2
     B   pi bèl  pase A
   'O B é mais bonito do que o A'

O espaço do Adjetivo foi preenchido por bèl (bonito) nesse exemplo, mas poderia estar ali qualquer outro adjetivo, como enteresan (interessante), léd (feio), wo (alto) etc. Passemos a ver a estrutura (2).

(2) X1       V         (plis) pase X2
     Lapen  mache (plis) pase tòti
'O coelho anda mais do que a tartaruga'

Repare que, em construções com verbos, temos a forma plis e não pi. Veja também que plis está entre parênteses porque é opcional. A mesma ideia pode ser construída apenas com o verbo serial de comparação pase, como acontece em muitas outras línguas crioulas.
A partir da construção (3) veremos como é possível construir essas mesmas comparações que já vimos aqui com uma estrutura similar à do francês.

(3) X1 pi Adj ke X2
      B  pi  bèl ke A
'O B é mais bonito do que o A'

Veja em (4) como é possível passar a mesma ideia da comparação feita em (2).

(4) X1      V         plis ke X2
     Lapen mache plis ke tòti
'O coelho anda mais que a tartaruga'

Note que em (4) já não é mais opcional o uso de plis, agora é parte essencial da construção frasal.

No próximo artigo veremos como se faz o comparativo de inferioridade, ou seja, dizer que algo é menos ... do que... Agora, por que você não vai até a página Dicionário, aqui no blog, e se diverte fazendo comparações para gravar bem a estrutura?! Babay!

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

ANGLICISMOS NO CRIOULO HAITIANO — um caso curioso

  O que são anglicismos? De modo básico, são importações da língua inglesa. Essas importações podem se dar em diversos níveis na língua, mas o mais comum é que ocorram no léxico da língua, ou seja, nas palavras.
Importações entre línguas é a coisa mais comum que existe. A própria língua inglesa é cheiíssima de importações de diversas línguas. Sendo o inglês a língua de comunicação global, sua influência é sentida em todas as línguas, em graus diferentes. Alguém que começar a aprender japonês hoje vai se surpreender com a influência do inglês, o mesmo vale para alguém que observe como o italiano tem sido usado pelos jovens e pela mídia. E no português? Muito também.
O interessante é que quando importamos uma palavra, várias adaptações ocorrem e essa palavra se incorpora à nossa língua e adquire pronúncia diferente da original, e mais interessante ainda: significado diferente do original. Como se fala outdoor em inglês? Billboard. Como se fala pen drive em inglês? Entre algumas formas temos flash drive. Como se diz shopping em inglês? Mall. A lista poderia continuar...
Fato é que não podemos fugir da influência da língua inglesa, nem o pode o crioulo haitiano. Por isso, vemos diversas palavras da língua inglesa que se adaptaram à fonologia do crioulo haitiano e passaram a ser usadas com o mesmo sentido ou um sentido diferente do original. É assim que temos bokit (balde) de bucket, bilding (prédio, edifício) de building, alawonnbadè ("em todo lugar") de all around by there, djòb (emprego) de job etc.
Mas não para por aí. Como já foi dito, é muito normal esse intercâmbio de palavras entre as línguas. A cada dia esse intercâmbio contribui para que o inventário de palavras de uma língua cresça. Toda língua tem dois inventários de palavras, por assim dizer. Um é um inventário aberto, ao qual se pode adicionar novas palavras sem problema. Outro é um inventário fechado, ao qual não se importam palavras e nem se inventam novas palavras. Querem um exemplo? Pensem nos números. Será que alguém vai inventar um número novo? Não. Pensem nos artigos o, a, os, as, será que vai surgir um novo? Não.
A cada dia o número de palavras lexicais aumenta. São palavras que fazem referência a algo que existe no mundo, seja concreto ou abstrato. São palavras do tipo carro, casa, caderno, janela, bondade, tristeza, felicidade. Mas as palavras gramaticais como para, com, entretanto, de, mas, que têm uma função, e não exatamente fazem referência a algo no mundo real, permanecem sempre as mesmas. Quando uma importação é feita, espera-se que seja de uma palavra lexical.
Vou ilustrar: imagine que comecem a chamar janela de window, como em inglês. Essa moda pode pegar e passarmos a usar window, e janela pode cair em desuso. Mas será que algum dia em vez de dizer a janela alguém mude para the janela? Não é de esperar que passemos a usar o artigo inglês the, mas é possível que mudemos de janela para window e vai ficar a window, mas não ficaria the janela. Será que deu pra entender?!
Agora chegamos ao que me chamou a atenção! Tenho visto que no crioulo haitiano é possível observar importação de palavras gramaticais!!! Isso é bem interessante! Em vez de donk (então) tem haitiano dizendo so (então, do inglês). Alguns estão dizendo but (mas) em vez de men (mas). Há quem diga just (somente) em vez de sèlman (somente).
A questão aqui colocada não é incentivar, mas também não é de criticar esses usos. Quis apenas reportá-los. Se você vir por aí um haitiano dizendo coisas desse tipo, não se assuste, parece que está cada vez mais comum.
So si w pa t konprann sa m te di a just li tèks la ankò. Enjoy tèt ou! (Então, se você não entendeu o que eu disse é ler o texto de novo. Divirta-se!)

sábado, 29 de setembro de 2018

A NOÇÃO DE POSSE EM CRIOULO HAITIANO — Parte 1


         Não é a primeira vez que falamos sobre como indicar posse em crioulo haitiano. No artigo Pronomes Possessivos, vimos como usar os pronomes mwen, ou, li, nou, yo para isso. Aliás, vale deixar claro aqui que apesar de eu mesmo tê-los chamado de pronomes possessivos, a maneira mais correta seria chamá-los de adjetivos possessivos, mas isso é detalhe técnico.
         Em português, de maneira geral, para indicar posse fazemos uso da preposição de. Assim, dizemos coisas do tipo “livro do (de+o) José”, “casa da (de+a) Maria”, “o povo de Deus”. Vemos claramente que a preposição de tem como um de seus papéis atribuir a ideia de posse. O português veio do latim. No latim, a posse era indicada por uma flexão na própria palavra. Como assim? As palavras mudavam de forma para indicar que se tratava da ideia de posse. Pensando em um exemplo, peguemos a palavra menina em latim, puella. Para dizer que algo é “da menina”, ou seja, pertence à menina, muda-se o final da palavra para -ae­, ficando puellae. Para dizer isso no plural, ou seja, que algo é “das meninas”, muda-se o final para -arum, ficando puellarum.
         Com o tempo, o latim foi perdendo suas marcas de caso. Cada “caso” indicava uma função diferente, digamos. O caso genitivo é esse do qual estamos falando, indicava posse. Veja-se que o inglês também tem o caso genitivo, que é marcado pelo apóstrofo S (’s), por isso se diz em inglês the girl’s book (o livro da menina, literalmente /o menina-GENITIVO livro/). A marca do genitivo permite identificar a quem pertence o livro. Com a perda dos casos, as línguas neolatinas, as que derivaram do latim, passaram a empregar preposições que cumprem os papéis que antes eram das flexões de caso. É assim que o de tem hoje, em português e outras línguas, o papel de indicar posse. Lembrando que essa é uma de outras funções.
         Mas vamos ao crioulo, que nos interessa mais, pois já falamos o português. Algumas línguas mostram as funções da palavra dentro dela mesma, fazendo alterações na palavra por várias maneiras. São línguas em que o CASO é CONCRETO, porque vemos que a morfologia, a forma da palavra, é alterada, como vimos no latim. Mas em outras línguas, o CASO é ABSTRATO. As palavras não mudam, então como saber de suas funções na sentença? A colocação das palavras é importantíssima para marcar o caso, nessas línguas. É o que acontece com o crioulo haitiano.
         Em crioulo haitiano não se marca a posse nem por flexão (mudança na forma da palavra) nem por preposição (não se usa a preposição de para marcar posse). A noção de posse é pura e simplesmente marcada pela ordem em que as palavras aparecem numa sentença (ou num trecho dela, a que damos o nome sintagma). Qual é essa ordem?
         Eis a ordem seguida no crioulo haitiano:
OBJETO QUE ALGUÉM POSSUI + PESSOA QUE O POSSUI
         Apliquemos essa ordem pegando os exemplos que já foram citados aqui.
Livro do José : Liv Jozèf
Casa da Maria : Kay Mari
Povo de Deus : Pèp Bondye
         Basicamente, o que aconteceu? Sumiu o de, simples. Como falantes da língua portuguesa, nossa gramática interna (não um livro que dita regras!) faz com que tenhamos a impressão de estar faltando algo se não usarmos a preposição. É aí que temos de lembrar que as gramáticas das línguas diferem muito e temos que prestar atenção para não deixar que a gramática do português nos faça construir frase inexistentes na língua que estamos aprendendo.
         Existem algumas outras coisas a considerar sobre esse assunto, mas isso ficará para a parte 2. Hoje foi um daqueles artigos que falamos muito para ensinar pouco, mas espero que aproveitem das informações adicionais! A byento! Até logo!

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

O que significa KIFKIF?


         Vou abordar aqui o uso mais comum dessa palavra, não sei dizer se há outros.

         De modo geral, kifkif  é usado com o verbo aji (agir). Quando alguém age kifkif com alguém, o sentido é de retaliação. Assim, se alguém faz algo ruim para outra pessoa, ela pode querer aji kifkif, ou seja, revidar.

         Podemos comparar kifkif a expressões idiomáticas do tipo “estar quite com”, “pagar na mesma moeda”. De qualquer modo, pa aji kifkif (não pague na mesma moeda).

         Dúvidas? Você pergunta, o blog responde!

Estamos de volta, mas em outra plataforma!

  Como estão "zanmigos"? Estamos de volta, mas no Instagram:  https://www.instagram.com/aprendacrioulohaitiano?igsh=MXBkb2JmanRqeG...