sábado, 5 de janeiro de 2019

Comparativo de Superioridade em crioulo haitiano

Vejamos algumas estruturas para comparações em crioulo haitiano. O X1 representa a pessoa/coisa que tem algo a mais em relação a outra, que é representada por X2. O que está destacado em negrito são os termos que usamos para realizar a comparação. A letra V corresponde a Verbo, e Adj refere-se a Adjetivo.
São essas as estruturas possíveis:
(1) X1 pi Adj pase X2
(2) X1 V (plis) pase X2
(3) X1 pi Adj ke X2
(4) X1 V plis ke X2
Vamos exemplificar cada estrutura, começando por (1).

(1) X1 pi Adj pase X2
     B   pi bèl  pase A
   'O B é mais bonito do que o A'

O espaço do Adjetivo foi preenchido por bèl (bonito) nesse exemplo, mas poderia estar ali qualquer outro adjetivo, como enteresan (interessante), léd (feio), wo (alto) etc. Passemos a ver a estrutura (2).

(2) X1       V         (plis) pase X2
     Lapen  mache (plis) pase tòti
'O coelho anda mais do que a tartaruga'

Repare que, em construções com verbos, temos a forma plis e não pi. Veja também que plis está entre parênteses porque é opcional. A mesma ideia pode ser construída apenas com o verbo serial de comparação pase, como acontece em muitas outras línguas crioulas.
A partir da construção (3) veremos como é possível construir essas mesmas comparações que já vimos aqui com uma estrutura similar à do francês.

(3) X1 pi Adj ke X2
      B  pi  bèl ke A
'O B é mais bonito do que o A'

Veja em (4) como é possível passar a mesma ideia da comparação feita em (2).

(4) X1      V         plis ke X2
     Lapen mache plis ke tòti
'O coelho anda mais que a tartaruga'

Note que em (4) já não é mais opcional o uso de plis, agora é parte essencial da construção frasal.

No próximo artigo veremos como se faz o comparativo de inferioridade, ou seja, dizer que algo é menos ... do que... Agora, por que você não vai até a página Dicionário, aqui no blog, e se diverte fazendo comparações para gravar bem a estrutura?! Babay!

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

ANGLICISMOS NO CRIOULO HAITIANO — um caso curioso

  O que são anglicismos? De modo básico, são importações da língua inglesa. Essas importações podem se dar em diversos níveis na língua, mas o mais comum é que ocorram no léxico da língua, ou seja, nas palavras.
Importações entre línguas é a coisa mais comum que existe. A própria língua inglesa é cheiíssima de importações de diversas línguas. Sendo o inglês a língua de comunicação global, sua influência é sentida em todas as línguas, em graus diferentes. Alguém que começar a aprender japonês hoje vai se surpreender com a influência do inglês, o mesmo vale para alguém que observe como o italiano tem sido usado pelos jovens e pela mídia. E no português? Muito também.
O interessante é que quando importamos uma palavra, várias adaptações ocorrem e essa palavra se incorpora à nossa língua e adquire pronúncia diferente da original, e mais interessante ainda: significado diferente do original. Como se fala outdoor em inglês? Billboard. Como se fala pen drive em inglês? Entre algumas formas temos flash drive. Como se diz shopping em inglês? Mall. A lista poderia continuar...
Fato é que não podemos fugir da influência da língua inglesa, nem o pode o crioulo haitiano. Por isso, vemos diversas palavras da língua inglesa que se adaptaram à fonologia do crioulo haitiano e passaram a ser usadas com o mesmo sentido ou um sentido diferente do original. É assim que temos bokit (balde) de bucket, bilding (prédio, edifício) de building, alawonnbadè ("em todo lugar") de all around by there, djòb (emprego) de job etc.
Mas não para por aí. Como já foi dito, é muito normal esse intercâmbio de palavras entre as línguas. A cada dia esse intercâmbio contribui para que o inventário de palavras de uma língua cresça. Toda língua tem dois inventários de palavras, por assim dizer. Um é um inventário aberto, ao qual se pode adicionar novas palavras sem problema. Outro é um inventário fechado, ao qual não se importam palavras e nem se inventam novas palavras. Querem um exemplo? Pensem nos números. Será que alguém vai inventar um número novo? Não. Pensem nos artigos o, a, os, as, será que vai surgir um novo? Não.
A cada dia o número de palavras lexicais aumenta. São palavras que fazem referência a algo que existe no mundo, seja concreto ou abstrato. São palavras do tipo carro, casa, caderno, janela, bondade, tristeza, felicidade. Mas as palavras gramaticais como para, com, entretanto, de, mas, que têm uma função, e não exatamente fazem referência a algo no mundo real, permanecem sempre as mesmas. Quando uma importação é feita, espera-se que seja de uma palavra lexical.
Vou ilustrar: imagine que comecem a chamar janela de window, como em inglês. Essa moda pode pegar e passarmos a usar window, e janela pode cair em desuso. Mas será que algum dia em vez de dizer a janela alguém mude para the janela? Não é de esperar que passemos a usar o artigo inglês the, mas é possível que mudemos de janela para window e vai ficar a window, mas não ficaria the janela. Será que deu pra entender?!
Agora chegamos ao que me chamou a atenção! Tenho visto que no crioulo haitiano é possível observar importação de palavras gramaticais!!! Isso é bem interessante! Em vez de donk (então) tem haitiano dizendo so (então, do inglês). Alguns estão dizendo but (mas) em vez de men (mas). Há quem diga just (somente) em vez de sèlman (somente).
A questão aqui colocada não é incentivar, mas também não é de criticar esses usos. Quis apenas reportá-los. Se você vir por aí um haitiano dizendo coisas desse tipo, não se assuste, parece que está cada vez mais comum.
So si w pa t konprann sa m te di a just li tèks la ankò. Enjoy tèt ou! (Então, se você não entendeu o que eu disse é ler o texto de novo. Divirta-se!)

sábado, 29 de setembro de 2018

A NOÇÃO DE POSSE EM CRIOULO HAITIANO — Parte 1


         Não é a primeira vez que falamos sobre como indicar posse em crioulo haitiano. No artigo Pronomes Possessivos, vimos como usar os pronomes mwen, ou, li, nou, yo para isso. Aliás, vale deixar claro aqui que apesar de eu mesmo tê-los chamado de pronomes possessivos, a maneira mais correta seria chamá-los de adjetivos possessivos, mas isso é detalhe técnico.
         Em português, de maneira geral, para indicar posse fazemos uso da preposição de. Assim, dizemos coisas do tipo “livro do (de+o) José”, “casa da (de+a) Maria”, “o povo de Deus”. Vemos claramente que a preposição de tem como um de seus papéis atribuir a ideia de posse. O português veio do latim. No latim, a posse era indicada por uma flexão na própria palavra. Como assim? As palavras mudavam de forma para indicar que se tratava da ideia de posse. Pensando em um exemplo, peguemos a palavra menina em latim, puella. Para dizer que algo é “da menina”, ou seja, pertence à menina, muda-se o final da palavra para -ae­, ficando puellae. Para dizer isso no plural, ou seja, que algo é “das meninas”, muda-se o final para -arum, ficando puellarum.
         Com o tempo, o latim foi perdendo suas marcas de caso. Cada “caso” indicava uma função diferente, digamos. O caso genitivo é esse do qual estamos falando, indicava posse. Veja-se que o inglês também tem o caso genitivo, que é marcado pelo apóstrofo S (’s), por isso se diz em inglês the girl’s book (o livro da menina, literalmente /o menina-GENITIVO livro/). A marca do genitivo permite identificar a quem pertence o livro. Com a perda dos casos, as línguas neolatinas, as que derivaram do latim, passaram a empregar preposições que cumprem os papéis que antes eram das flexões de caso. É assim que o de tem hoje, em português e outras línguas, o papel de indicar posse. Lembrando que essa é uma de outras funções.
         Mas vamos ao crioulo, que nos interessa mais, pois já falamos o português. Algumas línguas mostram as funções da palavra dentro dela mesma, fazendo alterações na palavra por várias maneiras. São línguas em que o CASO é CONCRETO, porque vemos que a morfologia, a forma da palavra, é alterada, como vimos no latim. Mas em outras línguas, o CASO é ABSTRATO. As palavras não mudam, então como saber de suas funções na sentença? A colocação das palavras é importantíssima para marcar o caso, nessas línguas. É o que acontece com o crioulo haitiano.
         Em crioulo haitiano não se marca a posse nem por flexão (mudança na forma da palavra) nem por preposição (não se usa a preposição de para marcar posse). A noção de posse é pura e simplesmente marcada pela ordem em que as palavras aparecem numa sentença (ou num trecho dela, a que damos o nome sintagma). Qual é essa ordem?
         Eis a ordem seguida no crioulo haitiano:
OBJETO QUE ALGUÉM POSSUI + PESSOA QUE O POSSUI
         Apliquemos essa ordem pegando os exemplos que já foram citados aqui.
Livro do José : Liv Jozèf
Casa da Maria : Kay Mari
Povo de Deus : Pèp Bondye
         Basicamente, o que aconteceu? Sumiu o de, simples. Como falantes da língua portuguesa, nossa gramática interna (não um livro que dita regras!) faz com que tenhamos a impressão de estar faltando algo se não usarmos a preposição. É aí que temos de lembrar que as gramáticas das línguas diferem muito e temos que prestar atenção para não deixar que a gramática do português nos faça construir frase inexistentes na língua que estamos aprendendo.
         Existem algumas outras coisas a considerar sobre esse assunto, mas isso ficará para a parte 2. Hoje foi um daqueles artigos que falamos muito para ensinar pouco, mas espero que aproveitem das informações adicionais! A byento! Até logo!

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

O que significa KIFKIF?


         Vou abordar aqui o uso mais comum dessa palavra, não sei dizer se há outros.

         De modo geral, kifkif  é usado com o verbo aji (agir). Quando alguém age kifkif com alguém, o sentido é de retaliação. Assim, se alguém faz algo ruim para outra pessoa, ela pode querer aji kifkif, ou seja, revidar.

         Podemos comparar kifkif a expressões idiomáticas do tipo “estar quite com”, “pagar na mesma moeda”. De qualquer modo, pa aji kifkif (não pague na mesma moeda).

         Dúvidas? Você pergunta, o blog responde!

sábado, 14 de julho de 2018

Você pergunta, o blog responde: O que é POUTAN?


         Que pergunta boa! Nem sei como eu ainda não tinha falado disso. Estão vendo como é bom quando vocês mandam perguntas e sugestões de matérias? Vamos lá...

         O que pode confundir a maioria é que POUTAN ou EPOUTAN se parecem ao nosso “PORTANTO”. Mas só se parecem mesmo. Em crioulo, POUTAN e EPOUTAN são a mesma coisa que “NO ENTANTO”, ou seja, a mesma coisa que SEPANDAN. São conjunções adversativas.

         Para dizer “PORTANTO”, que é um conjunção conclusiva, dizemos DONK, que equivale também ao nosso “ENTÃO”.

         Aqui vão uns exemplos práticos:

Mwen te envite l vini lakay mwen, epoutan li pa t kapab vini
Mwen te envite l vini lakay mwen, sepandan li pa t kapab vini
(Eu o convidei para vir a minha casa, no entanto ele não pôde vir)

         Tanto “epoutan” quanto “poutan” são variações da mesma palavra. Escolha a que desejar. Ou use “sepandan”, dá no mesmo.

         Lembre-se, você pergunta, o blog responde! Até mais!
        


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Sobre o crioulo haitiano (não) ser uma língua pro-drop


         Opa! Lá vem o Bruno e seus nomes difíceis. Não é culpa minha, é da Linguística. Mas vocês sabem, eu até falo uns nomes difíceis, mas sempre explico depois. Vamos a mais um detalhe do crioulo haitiano.

         Faz exatamente duas horas que recebi um comentário no post sobre verbos pronominais. Ali, parece que uma frase específica chamou a atenção da leitora. É a frase “Li enpòtan pou w debarase tèt ou anba tristès” (é importante que você se livre da tristeza). Ora, o que causou dúvida é o fato de a frase começar com “li” e não haver, na tradução, o pronome “ele”. Li não é ele?! Dúvida interessantíssima, riquíssima.

         Em primeiro lugar é bom esclarecer que o crioulo haitiano é uma língua não pro-drop. Ué, o que é isso?! Línguas pro-drop são línguas que permitem, por exemplo, usar o verbo sem o sujeito expresso. Como assim? Se você diz “comprei um livro ontem” sabemos que o sujeito é “eu” porque a terminação do verbo (-ei) nos indica isso, mas o pronome “eu” não está lá. É possível também dizer “eu comprei um livro ontem” e deixar o sujeito lá no lugarzinho dele. É por isso que dizemos que o português é uma língua pro-drop, ou parcialmente pro-drop, mas não queremos entrar na questão do parcialmente agora, afinal aqui estamos mais concentrados no crioulo, o português já sabemos naturalmente, mesmo que as regras não sejam claras a nós.

         Outras línguas, no entanto, são não pro-drop, e, portanto, EXIGEM que o verbo tenha seu sujeito explícito na oração. Alguns exemplos são o inglês, o francês e o... kreyòl ayisyen! Mesmo com verbos impessoais, como verbos de fenômeno da natureza, é necessário haver um sujeito. Pense no exemplo (1).

(1)             Choveu ontem

Ora, em português o verbo “chover” rejeita qualquer pronome, é impossível algo como *ele choveu ontem. Nas línguas que exigem sujeito, no entanto, o espaço antes do verbo, ou seja, o lugar do sujeito, obrigatoriamente deve estar preenchido. O inglês usa o pronome “it” para isso, e recebe até um nome especial — “dummy it”. Assim, em inglês dizemos como em (2).

(2)            It rained yesterday (algo como: ‘ele’ choveu ontem)

Em inglês não se poderia começar a sentença (2) com o verbo diretamente, como em português. O mesmo acontece com o crioulo. O sujeito precisa estar lá, bem evidente antes do verbo. É por isso que para dizer “está chovendo” dizemos em crioulo algo como “ele está chovendo”, veja em (3)

(3)            L ap fè lapli

O “ele”, nesse caso, está aí com um sentido meio que vazio, só para preencher um espaço. Já para dizer “é importante que...” o verbo SER, que é SE em crioulo, não aparece. (Veja a série de matérias sobre o uso do verbo SER e ESTAR) No entanto, o espaço do sujeito deve ser preenchido. É por isso que usamos LI ou SA. Então dizemos “Li enpòtan...” ou “Sa enpòtan...”.

Portanto, é muito importante que você pratique bastante! (Li/Sa enpòtan pou w pratike anpil!)

Acho que até aqui já deu, não é? Reflita nesses conceitos e tente observar como esse tipo de construção se comporta no crioulo e no português! Até mais!

P.S.: É bom esclarecer que existe uma minoria de verbos em crioulo haitiano que se comportam de maneira diferente, é por isso que com “genyen” e “sanble”, por exemplo, é possível começar a sentença a partir do verbo.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Mesye, misye — tem diferença mesmo?

Tem diferença? Tem sim. Vamos ver como posso explicar, vou tentar ser simples, mas não vou conseguir fugir de umas explicações com uns nomes complicados. As frases marcadas com asterisco (*) são frases agramaticais em crioulo.
De modo bem básico, classificamos misye como um termo anafórico. O que é isso? Nós usamos termos desse tipo toda hora. É quando retomamos algo que já dissemos. Veja as duas frases abaixo, (1) e (2).
(1)             O Pedro está doente. Isso fez com que ele não pudesse vir hoje.
(2)            A Marta foi viajar e só volta na próxima semana. Ela vai trazer umas coisas para mim.
Conseguiu reparar que os temos isso e ela estão resgatando uma informação/pessoa já mencionada? Isso é anáfora. Se misye é um termo anafórico, para usá-lo é necessário que a pessoa já tenha sido mencionada. O termo misye é restrito a referência a uma pessoa somente, e sempre do sexo masculino. Para ficar mais fácil, pense que misye corresponde ao pronome ele.
Veja os exemplos a seguir:
(3)            Jozèf gen 70 an. Misye te travay antanke pwofesè pandan 40 an.
Repare, em primeiro lugar, que misye retoma Jozèf, já mencionado anteriormente. A tradução é “José tem 70 anos. Ele trabalhou como professor durante 40 anos”. Pode-se muito bem trocar misye por li.
(4)            Jozèf gen 70 an. Li te travay antanke pwofesè padan 40 an.
Sendo um termo anafórico, com um papel de pronome, misye rejeita determinantes plurais, como números, artigos, e pronomes demonstrativos. Então as seguintes construções são impossíveis em crioulo:
*yon misye
*misye a, misye yo
*twa misye
*misye sa a
Essas construções só são possíveis com mesye, que significa senhor.
yon mesye = um senhor
mesye a, mesye yo = o senhor, os senhores
twa mesye = três senhores
mesye sa a = este senhor
Veja que a frase (3) pode ser reescrita com mesye, mas há a necessidade de acrescentar o artigo definido. Veja em (5).
(5)            Jozèf gen 70 an. Mesye a te travay antanke pwofesè padan 40 an.
De modo geral, onde pode ir misye pode ir também mesye a. Mas em alguns lugares só será possível mesye. Veja em (6).
(6)            Yon mesye te vizite m yè (Um senhor me visitou ontem)
Não é possível dizer *yon misye te vizite m yè. Dá para trocar por li? Vamos ver... *yon li te vizite m yè. Impossível, não dá pra trocar por li, então não dá pra ser misye, só mesye.
Vamos pensar em um último exemplo, na frase (7).
(7)             Mwen te pale avèk mesye yo (falei com os senhores)
É possível trocar o trecho em destaque por misye? Já vimos que misye rejeita o artigo yo. Além disso, não é possível trocar o trecho em destaque por li, se fôssemos trocar, seria por yo. Ali, portanto, só se pode usar mesye, não misye.
Assim, pense sempre: é possível trocar por li? Se for, grande chance de aceitar misye. Outra questão: estou retomando uma pessoa que já foi mencionada na conversa/texto? Então há grande chance de ser misye também. Nos outros casos, sempre mesye.
Façam os exercícios no link abaixo para testar sua compreensão e treinar! Até mais!

Estamos de volta, mas em outra plataforma!

  Como estão "zanmigos"? Estamos de volta, mas no Instagram:  https://www.instagram.com/aprendacrioulohaitiano?igsh=MXBkb2JmanRqeG...