segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Ki, ke, kote — Pronomes relativos no crioulo haitiano

      Este artigo estava sendo ansiosamente aguardado por muitos! Então, não vou gastar muito tempo com a introdução. Vamos aprender o uso correto de cada um.
       Só lembrando que “ki”, “ke” e “kote” funcionam como o pronome relativo “que” em português, mas o uso em crioulo é um pouco diferente do uso que fazemos. Vamos estudá-los, então!
      KI → Com certeza, o "KI" é muito usado. Este pronome deve ser usado antes de verbos e antes de adjetivos. Há também o "KI" que é o pronome interrogativo "qual", não se confunda.
Eu conheço a pessoa que estuda com você
Mwen konnen moun ki etidye avè w la
       Às vezes haverá um marcador de tempo, um advérbio ou uma sequência desses dois elementos entre o "KI" e o verbo.
   1)     Note a sequência: ki + marcador de tempo + verbo
A pessoa que falou com você é meu irmão
Moun ki te pale avè w la se frè m
   2)     Note a sequência: ki + advérbio + verbo
As profecias que já se realizaram
Pwofesi ki deja reyalize yo
   3)     Note a sequência: ki + marcador de tempo + advérbio + verbo
A vida eterna (Literalmente: A vida que nunca acabará)
Lavi ki pap janm fini an
       “KI” também deve ser usado antes de adjetivos, principalmente porque os verbos Ser e Estar são omitidos. Com o verbo Estar, também usamos “KI” antes de especificar um lugar.
   1)     A menina que é bonita = Tifi ki bèl la
  O menino que é inteligente = Tigason ki entèlijan an
   2)     Vamos consolar a pessoa que está triste = Annou konsole moun ki tris la
   3)     O menino que está na escola = Tigason ki nan lekòl la
  A pessoa que estava comigo = Moun ki te avè m nan
      Vamos a uma proibição!!! Por favor, NUNCA, JAMAIS, use “KI” antes de um pronome pessoal, ou de um sujeito.
Ele disse que eu .... Li te di KI MWEN… NÃÃÃO… KI MWEN, KI OU, KI LI, KI NOU, KI YO
Ele disse que eu me pareço a sua irmã = Li te di mwen sanble sè li (Não use o “KI”)
        Mas, você pode (mas não é necessário) dizer LI TE DI KE MWEN SANBLE SÈ LI. Bem, vamos lá falar um pouco do KE.
       KE → Você já viu o “KE” usado na escrita? Provavelmente não. Mas, se você fala com haitianos regularmente sabe que eles o usam bastante, né? Por quê? Veremos isso também. Bem, o “KE” pode ser usado antes do sujeito da frase.
O livro que eu comprei... = Liv ke mwen te achte a...
        Na linguagem formal, é melhor omitir o “KE”. A frase fica “Liv mwen te achte a...”. Deste modo, o “KE” é expletivo, de realce, só serve para enfatizar o sujeito. Em português, temos o “que” expletivo também. É por isso que às vezes repetimos o “que”.
O que que você disse? (Não há necessidade de repetir o “que”, mas fazemos isso, sobretudo na fala.)
        Assim, o brasileiro, por influência do português, quer colocar o “ke” em várias partes quando a gramática do crioulo não o pede. Já o haitiano, por influência do francês, usa o “KE” mais do que deveria também.
         O haitiano, por influência do francês, usa o “ke” para introduzir alguns complementos depois de verbos como “montre” (mostrar), “di” (dizer), “remake” (notar) e outros. Assim, o haitiano diz:
Este livro mostra que os haitianos geralmente falam crioulo e francês
Liv sa a montre ke ayisyen yo jeneralman pale kreyòl ak fransè
        Mas, a gramática do crioulo não pede esse “KE”, ou seja, os haitianos o usam, não é errado, mas não é essencial para a frase. Assim, podemos retirar o “KE” e a frase ficará:
Liv sa a montre ayisyen yo jeneralman pale kreyòl ak fransè
        Mas, como vimos, nunca use o “KI” nesse caso (antes de sujeito)!!!
      KOTE → Este é o pronome relativo que usamos ao falar de um lugar, ou ao fazer referência a um tempo. Pode ser traduzido como “onde” dependendo do contexto.
   1)     Com referência a lugar:
O bairro onde moro é bonito /ou/ O bairro em que moro é bonito
Zòn kote mwen abite a bèl
   2)     Com referência a tempo.
Espero o momento em que todos serão felizes
Mwen tann moman kote tout moun pral gen kè kontan

       Espero que os pontos abordados tenham esclarecido suas dúvidas. Fique à vontade para se comunicar com o Blog. Babay!

Revisão de 12/01/2016
Revisão de 06/04/2016


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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Você pergunta, o Blog responde: Existe alguma regra para o uso do “Y”?

      Sim, há uma regra. Vou abranger alguns pontos que poderão guiar você ao escrever.
      Provavelmente você já notou que o princípio que guia a ortografia do crioulo é o de ter uma só letra para representar um único som. Diferente do português, por exemplo, onde a letra “G” tem um som quando vem antes de “a, o, u” (ga, go, gu) e ainda outro som diferente antes de “e, i” (ge, gi), no crioulo o “G” sempre terá um som apenas. Poderia citar muitos outros casos, como o do “S”, que às vezes tem som de “S” mesmo e às vezes de “Z”. No crioulo não haverá isso, como sabemos. A letra “S” nunca terá o som de “Z”, e assim vai.
      Mas, talvez você já tenha notado que em se tratando do som da letra “U” (e, na verdade, não existe a letra “U” em crioulo), a fim de representar esse som temos duas opções! Podemos usar a letra “OU” ou a letra “W”. E agora? O princípio é de ter uma só letra para representar cada som, mas no caso de “OU” e “W”, são duas letras com o mesmo som?! Por quê?! O mesmo acontece com a vogal “I”. Além do “I”, há também o “Y” que tem o mesmo som, e é nesse que queremos nos concentrar.
      Algo importante que é necessário destacar é que “OU” e “I” são vogais. “W” e “Y” são semivogais. Estas semivogais têm um papel importantíssimo no crioulo, sobretudo na ortografia. Anote isso bem grande: “No crioulo, NUNCA haverá uma sequência de vogais.” Sim, nunca deve existir no crioulo uma sequência de duas ou mais vogais*. Lembrando que “OU” não é o encontro de “O” com “U”, mas é uma só letra do crioulo. E, vale lembrar também que “UI” não é o encontro de “U” com “I” mas é uma só letra do alfabeto crioulo haitiano. Mas, então, onde é que entra o “w” e o “y” em jogo?
      As semivogais “w” e “y” têm o papel de separar vogais numa palavra. Elas não são enfatizadas na pronúncia, só dão destaque à vogal principal. Vejamos na prática.
     Peguemos como exemplo a palavra REUNIÃO. Em francês a palavra é RÉUNION. Como se formou essa palavra? Juntou-se o prefixo RE- com a palavra UNIÃO. Em crioulo, não há a letra “U”, assim, onde no francês há o “U”, em crioulo trocamos por “I”. Assim, de RÉUNION vai para REINION (tira-se o acento agudo, que não existe no crioulo**). Mas, veja, temos vários encontros de vogais. Temos de separá-las.
      RE + INION para separar o “E” do “I”, usamos uma semivogal “Y”. REYINION. Opa! Há outro encontro no final da frase. A vogal “I” não pode encontrar a vogal nasal “ON”. Deste modo, substituímos o “I” por “Y”, ficando REYINYON.
      No nome pessoal de Deus, Jeová, acontece algo assim.*** Neste caso faz-se uso da semivogal “W” para separar a sequência de vogais “EO”. Assim, do francês Jéhovah, passa para Jewova, em crioulo. Sendo o “W” uma semivogal, sua pronúncia não é destacada, o destaque vai para o “O”. É por isso que lemos “Jeová” normalmente, e não “JE – UU – OVÁ”.
      Espero que esses princípios apresentados aqui ajudem você na hora de escrever em crioulo. Há muitos outros detalhes que poderíamos considerar, mas acredito serem suficientes os que foram apresentados aqui. O Blog tem um sonho: quem sabe um dia publicar uma gramática ampla da língua crioula haitiana! Para a alegria de muitos, ela já começou a ser escrita. Mas, um trabalho tão minucioso ainda levará tempo até se completar. Enquanto isso, mande suas dúvidas. Fique à vontade para se comunicar com o Blog. Lembre-se: Você pergunta, o Blog responde.
      Até mais! N a wè pita!

Obs.: Recentemente observei a grafia “reegzamine” num artigo escrito em crioulo haitiano. Como vimos, há necessidade da semivogal “y” para separar essa sequência “ee”. Assim, a grafia ideal da palavra é “reyegzamine”.

*Salvo em nomes nomes próprios de origem hebraica ou francesa.
**Salvo o acento agudo diferencial, do qual falaremos em outra ocasião.
***Jeová, é o nome pessoal de Deus, conforme consta da Bíblia, veja Salmo 83:18.
Revisão de 06/04/2016.

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A palavra “saudade” em crioulo haitiano

      Sempre dizemos que a palavra “saudade” é exclusiva da língua portuguesa, não é? Talvez seja mesmo. No entanto, em cada língua, há certas expressões, geralmente verbos, que nos ajudam a expressar a ideia de saudade. Que dizer do crioulo haitiano?
      Há, pelo menos, dois verbos que podemos usar para expressar a ideia de saudade. Vamos aprender a usá-los.

      Sonje → Sim, o verbo “sonje”, que significa “lembrar”, é usado para expressar saudade. Veja o exemplo abaixo.

Sinto saudades de minha mãe
= Mwen sonje manman m

      O contexto é que indicará que o verbo “sonje” está sendo usado no sentido de “estar com saudades”. Um haitiano que está aqui (no Brasil) há muito tempo, e diz “Mwen sonje fanmi m”, está dizendo que “Está com saudades da família”.
       É importantíssimo esclarecer que “sonje” não será usado no sentido de “parecer-se com alguém”. Em português, dizemos “ele lembra o pai”, em crioulo usamos o verbo “sanble” para isso. A frase ficaria “Li sanble papa l”.

      Manke → Este é outro verbo que se pode usar para exprimir o sentimento de saudade. Mas, ele será usado numa estrutura um pouco diferente da estrutura do “sonje”.
        Como você traduziria, usando o verbo “manke”, a seguinte frase: “Tenho saudades de você”?
       “Mwen manke ou”? Não. Quando usarmos o verbo “manke”, pensemos que a frase ficará assim: “Você faz falta para mim”. Ou seja, primeiro especificaremos quem é que nos faz falta. Depois disso, especificamos para quem a pessoa faz falta. Vamos à prática, assim você entenderá melhor. Pense no verbo “manke” como significando “fazer faltar a alguém”.

Tenho saudades de você
Passa a ser...
Você faz falta para mim
Em crioulo...
Ou manke mwen

       Pensemos num outro exemplo. “Maria faz falta para a mãe”, como ficaria?
De quem se sente saudades?
— Maria, por isso usamos seu nome no começo da frase.
Quem sente saudades de Maria?
— A mãe, por isso ela virá depois do verbo “manke”.
Assim, a frase fica...
Marya manke manman l
      Muito cuidado com o verbo “manke”, porque quando vemos “Marya manke manman l”, pensamos que a tradução é “Maria sente falta de sua mãe”, mas a frase está enfatizando que é a mãe que sente falta da filha, Maria.
      Não confunda o verbo “manke”, usado para expressar saudades, com os outros usos dele, às vezes significando “faltar”, “restar” e outras vezes usado no sentido de “preske”, ou seja, “quase”. Falaremos desses usos em outro artigo. Na dúvida, use “sonje”.
Manman Marya sonje l
= A mãe da Maria sente saudades dela

      Até o próximo artigo! N ap wè! Babay!

*Em algumas regiões do Haiti costuma-se dizer “chonje”, o Blog Aprann Kreyòl Ayisyen  prefere a forma “sonje”.

Revisão de 09/02/2016.

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Èske — Esclarecendo o uso

      Quem nunca se deparou com o famoso “èske”? Todos já o viram, não é? Vamos fazer um breve estudo para esclarecer o uso desse marcador de pergunta.
      Como já mencionei o “èske” marca uma pergunta. É usado no começo da pergunta. Sua origem é no francês, como a maioria dos vocábulos do idioma crioulo haitiano. No francês escreve-se “Est-ce que” mas se lê /éskê/. Não podemos dizer que há uma tradução totalmente compatível do “èske” na língua portuguesa, apesar do nosso “será”, usado para marcar uma incerteza, ser o que chega mais perto.
Será que ele virá?
Èske li pral vini ?
       Qualquer pergunta que não comece com ki kote, ki bò, kòman, ki jan, ki fason, kiyès, ki moun, ki lè, poukisa, konbyen* etc. devem começar com “èske”, na linguagem mais formal. Na fala, assim como ocorre no português, a pergunta pode ser marcada apenas pela entonação de pergunta.
Você fala crioulo haitiano?
Èske ou pale kreyòl ayisyen ?
      Não se pode deixar de citar que o “èske” é um marcador de perguntas indiretas. Como assim? Bem, às vezes, fazemos perguntas indiretas e estas dispensam o uso do ponto de interrogação. Veja abaixo.
Pergunte se ele fala português.
(Esta é uma pergunta indireta; não seu usa o “?”.)
Como ficaria em crioulo? Assim...
Mande l èske li pale pòtigè.
      Espero que possa ter ajudado com suas dúvidas. Ficou alguma? Não hesite, mande já uma mensagem para o Blog! Teremos prazer em considerar sua perguntar e respondê-la.


*Veja o artigo sobre formular perguntas clicando aqui.

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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Cumprimentando, agradecendo e se despedindo em crioulo haitiano

     Conforme o prometido, começaremos a ter matérias de assuntos mais básicos, além dos que explicam a gramática. Um desses assuntos que estava faltando por aqui é sobre cumprimentos, agradecimentos e como se despedir em crioulo. Então, veremos frases prontas, que, você estudante iniciante, poderá usar ao conversar com eles.

AO CUMPRIMENTAR
Bom dia! → Bonjou! (Ao chegar)
Tenha um bom dia! → Mwen swete w yon bon jounen! (Ao se despedir)
Boa tarde! → Bonswa! (Ao chegar)
Tenha uma boa tarde → Mwen swete w yon bon aprèmidi! (Ao se despedir)
Boa noite! → Bonswa! (Ao chegar)
Tenha uma boa noite! → Mwen swete w yon bon nuit! (Ao se despedir)
Como você está? → Kòman ou ye? / Ki jan ou ye?
Estou bem! → Mwen byen! / Mwen anfòm / Mwen pa pi mal / Mwen la.
E você? → E ou menm?
Eu também! → Mwen menm tou.
     Uma expressão muito usada para cumprimento é “Sa k pase?” (Ki sa ki pase) que literalmente é “o que está acontecendo?”, mas corresponde ao nosso “como está? Tudo bem?”. A resposta mais comum a este cumprimento é “N ap boule”. Reparem que mesmo que você esteja falando com apenas um haitiano o comum é a resposta estar no plural “Estamos lidando”. Veja mais dessa expressão clicando aqui.

AO AGRADECER
Obrigado/Obrigada → Mèsi!
Muito obrigado (a) → Mèsi anpil!
De nada! / Não há de quê. / Disponha → Deryen / Padekwa / Anyen / Pa gen pwoblèm.
Muito obrigado (a) por ... → Mèsi anpil pou ... / Mèsi anpil dèske ou te ...
‘Muito obrigado por ter me recebido’ → Mèsi anpil dèske ou te resevwa m lakay ou !

AO SE DESPEDIR
‘Tenho que ir embora’ → Fò m ale.
Estou indo → M ale.
Foi um prazer conhecê-lo! → Se te yon plezi pou mwen rekonèt ou.
Até mais! / Até logo! → N a wè pita! / Orevwa!
Tchau! → Babay!

     Sentiu falta de alguma expressão? Mencione nos comentários e eu a coloco aqui. Até mais! N a wè pita!

Revisão de 29/02/2016.

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sábado, 9 de janeiro de 2016

S’on, G’on, F’on — Isso é mesmo crioulo haitiano? Sim.

     Este artigo pertence a um novo gênero de artigos que serão postados no Blog. Como todos sabem, temos tratado bastante da gramática da língua escrita. Mas, como também se sabe, a escrita e a fala são dois universos distintos. Algumas coisas só pertencem à fala. Outras, são mais comuns na escrita. Hoje, vou registrar alguns “fenômenos” que fazem parte da fala dos haitianos, mas não é registrada na escrita formal. Você está convidado a embarcar no mundo da fala com o Blog Aprann Kreyòl Ayisyen!
    Bem, hoje, só por hoje (rsrs), vamos esquecer a tradicional gramática e vamos entender como algumas coisas funcionam na realidade do falante. Por isso, não vou analisar gramaticalmente esses fenômenos linguísticos, apenas quero registrá-los e, assim, quando se depararem com isso saberão o que é que os haitianos querem dizer.

S’on → Repare que eu fiz questão de colocar o apóstrofo (‘) separando o “S” do “on”. Por quê? “S’on” é a aglutinação do verbo “se” com o artigo indefinido “yon”. Isso mesmo. Em vez de dizer “se yon”, no quotidiano o mais comum será ouvir “s’on”. O uso do apóstrofo serve para marcar que houve a perda de algumas vogais neste processo de aglutinação; deste modo não se confunde “s’on” com “son”, que é o substantivo “som”, em português.
Na escrita...
Li se yon bon moun = Ele é uma pessoa boa
Mas na fala...
Li s’on bon moun = Ele é uma pessoa boa

G’on → Consegue descobrir que duas palavras se juntaram? Esta é a aglutinação do verbo “gen” (ter) com o artigo indefinido “yon” (um, uma). Veja como funciona.
Na escrita...
Mwen gen yon zanmi ayisyen 
= Tenho um amigo haitiano
Mas na fala...
M g’on zanmi ayisyen 
= Tenho um amigo haitiano

F’on → Esta trata-se da aglutinação do verbo “fè” (fazer) com o artigo indefinido “yon” (um, uma).
Na escrita...
Èske ou ka fè yon ti bagay pou mwen?
= Pode fazer uma coisa para mim?
Mas na fala...
Èske ou ka f’on ti bagay pou mwen?
= Pode fazer uma coisa pra mim?

     Hoje, compartilhei estes três fatos que fazem parte da língua falada. Há muitos outros. Outro dia ouvi “g’anpil”, de “gen” com “anpil”. No nosso idioma também há casos semelhantes. Dizemos “pra” em vez de “para a”. Dizemos “coa” em vez de “com a”. Essas contrações já não aparecem nos textos, mas são registradas pela língua culta! E, sem dúvida, continuam vivas na fala.

     Esse foi o artigo de hoje. Por favor, “conta co Blog pra te ajudar coa língua”. Compartilhe nos comentários as que você já ouviu! Até mais. Babay!

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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Colocação pronominal no crioulo haitiano

      O português é muito rico em opções, por ser rico, é complicado. Mesmo quando comparado às outras línguas da mesma família, a saber, o italiano, o espanhol, e o francês. O crioulo, porém, estabelece muito bem o uso de seus pronomes e a colocação deles na frase, por isso é menos complicado. Mas, a nossa colocação dos pronomes nem sempre coincidirá com a deles. Vamos a mais esse estudo!
      Em nosso idioma, os pronomes pessoais se dividem em: retos e oblíquos, estes últimos dividindo-se em átonos e tônicos. Lembremo-nos das funções dessas duas classificações. Os pronomes retos se empregam em posição de sujeito, eles conjugam os verbos. São pronomes retos: eu, tu, você, ele, ela, nós, vocês, eles, elas. Já os oblíquos se empregam em posição de objeto, ou seja, o complemento do verbo. São oblíquos átonos (não pedem preposição): me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, se, os, as, lhes. São oblíquos tônicos (e pedem preposição): a mim, a ti, a si, a nós, a vós, a si. Veja abaixo.

Eu comprei-lhe um livro

Eu = É o sujeito, é sobre quem se fala na oração, está conjugando o verbo. É pronome reto.
Lhe = É o complemente, a quem o livro foi comprado, aparece depois do verbo (já que é complemento). É pronome obliquo átono.

Eu comprei a ele um livro

Eu = Dispensa comentário já que é caso idêntico ao explicado acima. É pronome reto.
Ele = Ele, neste caso, funciona como pronome oblíquo tônico, é complemento do verbo, não o está conjugando e é precedido de preposição. Se dissermos “Ele comprou um livro a ele”, o primeiro “ele” é pronome reto e o último oblíquo tônico.
      Não basta toda a divisão dos pronomes. Nossa rica língua portuguesa nos fornece três formas de posicioná-los junto aos verbos. Chamam-se os posicionamentos dos pronomes oblíquos átonos:

PRÓCLISE > O pronome aparece ANTES do verbo.
     Ex.: Eu te disse!

ÊNCLISE > O pronome aparece APÓS o verbo, ligado por hífen.
     Ex.: Ele queixou-se da vida.

MESÓCLISE > O pronome aparece no meio do verbo! Estando estes verbos no futuro do presente ou futuro do pretérito.
      Ex.: “Falaria a mim” torna-se “falar-me-ia”

      Em crioulo você não tem opção. Os pronomes retos sempre se antepõem (aparecem antes) aos verbos. Já os oblíquos átonos, estes devem aparecer enclíticos ao verbo, ou seja, sempre DEPOIS, mas não separados por hífen como fazemos em português. Vejam os exemplos:

Quero te dizer uma coisa

     Em crioulo teremos de alterar duas coisas. Não dá para começar a frase simplesmente partindo do verbo, pois eles não são desinenciais (clique aqui para saber mais da conjugação em crioulo). Assim, devemos dizer “Eu quero”. Outo detalhe: note que dissemos “te falar”, em crioulo vamos usar a ênclise, ou seja, “falar-te”. Fica então: “Eu quero falar-te uma coisa”. Agora conseguiremos traduzir ao pé da letra.

EU           |  QUERO   |   DIZER-TE    |   UMA   |   COISA
MWEN    |     VLE     |       DI OU       |   YON    |   BAGAY

      Simplificando tudo: a colocação do pronome é essencial para não haver confusão. Quando o pronome vem antes do verbo ele é sujeito (é de quem se fala na frase) e quando está depois do verbo ele é complemento. Imagine que você queira dizer “Me ajude” (Ajude-me) se você disser “Mwen ede” você está dizendo “Eu ajudo” mas quando você diz “Ede m” ou “Ede mwen”, então, sim, você está dizendo “Me ajude”.

      Evite o brasileirismo no crioulo. Havendo muitos brasileiros interessados nesse idioma, alguns estão “importando” para o crioulo o brasileirismo (falo dos brasileiros porque isso é mais comum aqui, assim não injustiço os portugueses que leem este Blog) de dizer “para ele” ou “a ele” em vez de “lhe”. Assim, observem o que ocorre:

Diz-se no Brasil:
     Eu disse para você
Em vez de se dizer:
     “Eu lhe disse” ou “Eu disse-lhe”

      Deste modo, alguns dizem: “Mwen te di pou ou”. Note-se a preposição “pou”. Ora, este uso não é comum do crioulo, mas do português brasileiro. Assim, queira dar atenção à informação abaixo:

Eu disse a você / Eu te disse = M te di ou (não, pou ou)
Você disse a mim / Você me disse = Ou te di m (não, pou mwen)
Ele disse a nós / Ele nos disse = Li te di nou (não, pou nou)
Nós dissemos a vocês = Nós lhe dissemos = Nou te di nou (não, pou nou)
Vocês disseram a eles / Vocês lhes disseram = Nou te di yo (não, pou yo)

      Outra coisa que repele o uso de “pou” é o fato de o verbo dizer (di) ser transitivo direto, ou seja, não pede preposição. Repare que o verbo não pede preposição nem mesmo em casos de nome próprio.
      Em português, geralmente, na linguagem popular, a ordem é “dizer para alguém algo”. Essa também será a ordem no crioulo. Assim, ficará: “dizer + a pessoa a quem se diz + o que se diz”, note que não haverá preposição em momento algum. Vejamos o exemplo de uma frase.

Em português: Eu disse para o Bruno que quero comprar água.
Em crioulo: Mwen te di Bruno mwen vle achte dlo
Verbo conjugado: Mwen te di
A pessoa a quem se disse algo: Bruno
O que se disse: mwen vle achte dlo

      Reparou que se traduzirmos exatamente para o português a frase ficaria estranha? A tradução literal é: “Eu disse Bruno eu quero água”. Não usamos a preposição “para” ou “a” e muito menos o “que”. Então, lembre-se: Verbo DIZER + a pessoa a quem se diz (seja um pronome ou nome próprio) + o que você disse.
      Parece um pouco complicado né? Que tal fazer várias frases com esse verbo? Que tal fazer várias frases usando os pronomes me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, se, os, as, lhes? Se tem alguma dúvida específica, não deixe de mandar uma mensagem para o Blog usando o formulário de dúvidas (se você está acessando pelo computador) ou pelo e-mail aulasdecrioulohaitiano@gmail.com.

       Até mais! N a wè pita! Babay!
Revisado em 05/01/2016.

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Estamos de volta, mas em outra plataforma!

  Como estão "zanmigos"? Estamos de volta, mas no Instagram:  https://www.instagram.com/aprendacrioulohaitiano?igsh=MXBkb2JmanRqeG...