sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Você pergunta, o blog responde: Até que ponto o sotaque estrangeiro interfere na compreensão dos nativos?


         Esta pergunta é muito importante, muito interessante. É uma pena que ainda não existam muitos estudos do crioulo haitiano nessa área. Afinal, pesquisas desse tipo requerem investigação mais profunda.

         Quando se descreve o sistema fonológico de uma língua, concentra-se na identificação dos fonemas da língua e alguns fenômenos fonéticos. Os fonemas são unidades mínimas de som que não têm significado, mas são importantíssimos quando se combinam. Tome como exemplo os fonemas /f/ e /v/. Para produzir esses dois sons, encostamos o lábio inferior na arcada dentária superior e “sopramos”. A diferença dos dois é que, no caso do fonema /f/ as cordas vocais não vibram), mas no fonema /v/ as cordas vocais vibram. Faça o teste, leve sua mão até a garganta e produza cada um desses sons.

         Quando os fonemas /f/ ou /v/ se combinam a outros segmentos, outros fonemas, vê-se quão importante é diferenciá-los. Veja: faca versus vaca.

         Quando estamos tratando dos fonemas, que são segmentos, ocorrem sequencialmente, não há muita dificuldade para identificá-los. O problema mora em outro lugar, no nível suprassegmental. Isso mesmo, no nível acima desses segmentos.

         Agora passamos a falar de aspectos que têm a ver com todo o ritmo das orações de uma língua, da sílaba tônica, e da quantidade vocálica. “Quantidade” tem a ver com a duração da vogal, em algumas línguas é importantíssimo distinguir vogais breves e longas.

         Quanto à sílaba tônica, sinto-me confortável em dizer que todas as palavras do crioulo são oxítonas, ou seja, a última sílaba sempre será a mais forte.

         Quanto à entoação dos enunciados, não parece haver muita diferença em relação ao português. Por isso, geralmente é bem fácil distinguir uma afirmação/negação de uma interrogação, estando atento apenas à entoação (ou: entonação).

         Apesar de sabermos desses detalhes do nível suprassemental do crioulo haitiano, ainda falta muito a descobrir. Com respeito a sotaque estrangeiro é possível fazer algumas afirmações sem medo de errar, até porque todo mundo tem sotaque, até entre os nativos.

         Olhando bem superficialmente, podemos afirmar com certo grau de certeza que há uns desvios de pronúncia mais graves do que outros. Vamos a exemplos. Você acha que pronunciar o “R” do português numa palavra como “tanpri” (que significa “por favor”) tornaria essa palavra (ou qualquer outra) incompreensível? — A resposta é: não. Eles nem têm o “R” que nós temos em português. Essa pronúncia denunciaria você como estrangeiro, mas não afetaria a mensagem. (Que isso não se torne desculpa para ninguém!)

         Que dizer da pronúncia do “L”? Em português brasileiro, o “L” tem sido pronunciado como o “W” dos haitianos. Portanto, se você pronunciar o “L” como “W”, poderá confundi-los. Tomemos como exemplo a palavra “anpil” (que significado “muito”). Se você a pronunciar /ãpiw/, o falante poderá entender “Anpi w”, que significa “seu império”. É verdade que o contexto ajudará você nessa hora, mas é melhor não arriscar. Por isso é importante diferenciar também “en” de “enn” ou “èn”, “an” de “ann” ou “àn”, o “m” do “n” etc. Assista novamente à videoaula em que explico sobre alguns sons do crioulo clicando aqui.

Prometo que, ainda que leve alguns meses, o blog logo poderá responder com mais segurança à pergunta que ainda permanece: até que ponto o sotaque estrangeiro afeta a compreensão do nativo?
Alteração feita em 09/07/2018.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Pronomes demonstrativos: "sa" e "sila"


         Já prometi este artigo há um bom tempo, a um bom número de pessoas. Muitas coisas me fizeram deixá-lo para “mais tarde”. Chegou a hora.

         Como de costume aqui no blog, relembremos quais são os pronomes demonstrativos do português:

         Este, esta, isto: usamos quando algo está perto de nós. Se tenho um livro à mão, digo “Este livro é muito bom”.

         Esse, essa, isso: usamos quando algo está perto da pessoa com quem falamos. Se o livro está na mão da pessoa com quem falamos, diz-se “Esse livro é muito bom”.

         Aquele, aquela, aquilo: usamos quando algo está em um terceiro lugar, em que nenhuma das pessoas com quem estamos falando está. Assim, se estou falando com alguém e aponto a um lugar em que nem eu nem a pessoa está, dizemos “Aquele livro é bom”.

         É verdade que, modernamente, não temos feito a distinção que a gramática recomenda. Por isso, “esse” e “este” (e as outras possibilidades) têm sido usadas sem distinção. Isso não é um problema, a língua está mudando. Agora, passemos ao crioulo e seu sistema de pronomes demonstrativos.

         O crioulo herdou do francês a maior parte do seu léxico, ou seja, as palavras que compõem a língua haitiana. Com os pronomes demonstrativos não é diferente, e o francês tem alguns pronomes demonstrativos (ceci, cela...). Dentre os pronomes demonstrativos do francês, há um que pode substituir os outros, é o pronome ça. Ele é usado mais na linguagem familiar, coloquial. Foi justamente o ça que entrou no crioulo como pronome demonstrativo. Sua grafia foi adaptada ao sistema do crioulo haitiano, e ficou como sa, visto que não há cê cedilhado (ç) em crioulo haitiano.

         O sa, portanto, corresponde aos pronomes demonstrativos da língua portuguesa (este/a, esse/a, isto/isso). O sa é usado para se referir a coisas, objetos. Mas também pode ser usado para fazer referência a pessoas se houver um termo no contexto que indique isso, como moun (pessoa), gason (homem), fi (mulher) etc.

K = kreyòl (crioulo); P = português.

          K: Sa (a) se yon liv mwen renmen anpil

P: Este é um livro do qual eu gosto muito

         O a (artigo definido) às vezes acompanhará o sa, resultando em sa a. Podemos pensar que sa é esse, essa, isso. Sa a seria este, esta, isto. Em muitos casos, será indiferente empregar sa ou sa a.

         É notável que quando uma coisa já foi mencionada, e agora fazemos referência a ele novamente, usando esse pronome, o artigo aparece também, ficando sa a.

         K: Mwen genyen yon liv kreyòl. Liv sa a se trèzenteresan

         P: Tenho um livro em crioulo. Este livro é interessantíssimo

         K: Liv sa a enpòtan anpil

         P: Este livro é muito importante

         O pronome demonstrativo que usamos exclusivamente ao fazer referência a pessoas é sila. Vem do francês cela. Visto que a vogal e francesa é, muitas vezes, tão átona, tão “fraca”, passou a “i” no crioulo haitiano em alguns casos.

         K: Li se sila mwen te mansyone a

         P: Ele é aquele (a pessoa) que eu mencionei


         Muitas vezes o sila ocorrerá com o artigo também, ficando sila a. Isso não muda o significado de nada, mas pode deixar uma referência, uma alusão, mais específica (quando acompanhada de artigo).

         O plural de sa (a) é sa yo. O plural de sila (a) é sila yo.

         Haverá ocasiões em que sa e sila servirão ora como dêitico (quando fazemos uma referência extralinguística, algo não mencionado no texto/conversa, mas que se encontra no ambiente em que os falantes estão inseridos), e muitas vezes retomarão ou anteciparão um termo que está por vir: são casos de anáfora e catáfora. Como os nomes são muito feios, deixaremos os estudos de foricidade para um artigo futuro. Paremos por aqui.
          N ap wè.
P.S.: Logo entenderemos mais sobre pronomes dêiticos, anafóricos e catafóricos, não se preocupem.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Os artigos definidos e sua colocação no sintagma


         Não é a primeira vez que falamos sobre os artigos definidos. Há tanto a dizer e explicar sobre os artigos definidos que seria possível escrever um livro só sobre esse assunto. Em outubro de 2014, publicamos aqui a matéria Artigos definidos e indefinidos, ali o blog ensinou a empregar os artigos de acordo com a terminação das palavras (a, an, nan, la, lan, yo). Como já sabemos, esses artigos vêm depois das palavras, não antes como na maioria das línguas! Isso por si só já é um detalhe bem interessante!

         De que detalhe sobre os artigos falaremos hoje? Bem, costuma-se ensinar que, como eu mesmo disse acima, os artigos vêm depois das palavras. De que palavras? Das palavras que eles determinam? Sim, e não. Numa frase como O LIVRO QUE EU COMPREI ENSINA CRIOULO, o artigo virá depois da palavra “livro”, né?! Ficando: LIVRO O que eu comprei... Não, não, não. A frase ficará LIVRO QUE EU COMPREI O ENSINA CRIOULO. Meu Deus! O “o” ficou tão longe do substantivo LIVRO! Por quê? Porque o artigo vem no final do sintagma.

         Quem já fez o curso Iniciação ao Crioulo Haitiano – Módulo I, oferecido aqui pelo blog, viu uma matéria em que nos concentramos na identificação dos sintagmas para colocar corretamente os artigos. Mas, afinal, o que são esses “sintagmas”? Não se assuste, a gente fala uns nomes difíceis, mas a gente explica.

         Não é possível falar desse assunto em pouco tempo, mas aqui vamos dar uma breve introdução que lhes será útil na hora de colocar corretamente o artigo numa oração. Uma oração como “o menino comeu o pão” é constituída de sintagmas, que são unidades que funcionam como um conjunto. A frase-modelo que usamos é bem simples, então vamos entender melhor.

         Nessa frase temos a estrutura mais simples, e mais comum, do crioulo, Sujeito + Verbo + Objeto (SVO). Se formos dividir essa oração em sintagmas, faríamos assim:

S[SN[O menino] SV[V[comeu] SN[o pão]]]

Legenda: S = sentença; SN = sintagma nominal; SV = sintagma verbal; V = verbo.

         Tendo identificado que o trecho “o menino” é um conjunto ao qual damos o nome “sintagma nominal”, sabemos que o artigo virá após o substantivo “menino”, a frase, em crioulo, ficará

TIGASON AN TE MANJE PEN AN

         Mas o que dizer de uma oração como a citada no começo que é bem mais complexa?

O LIVRO QUE EU COMPREI ENSINA CRIOULO

         Vimos que a ordem da oração ficará:

LIVRO QUE EU COMPREI O ENSINA CRIOULO

         O artigo fica lá no final do primeiro sintagma nominal da oração = “o livro que eu comprei”. Mas a pergunta que surge é: como identificar os sintagmas? Há várias maneiras. Uma delas é por tentar substituir um trecho da frase com um pronome interrogativo (como, quem, qual, o quê etc.). Tentemos:

O QUE ensina crioulo?

         Notou que todo o trecho “o livro que eu comprei” foi substituído pelo interrogativo? Está identificado um sintagma com função de sujeito, por isso é nominal. O mesmo pode ser feito com o final da oração:

O livro que eu comprei ensina O QUÊ?

         A palavra “crioulo”, que desapareceu, é também um sintagma nominal, com função de objeto nesse caso. Nossa frase com os sintagmas assinalados, ficará assim:

S[SN[O livro que eu comprei] SV[V[ensina] SN[crioulo]]]

         Traduzindo para o crioulo, teremos:

Liv mwen te achte a anseye kreyòl

         Quando não se sabe identificar o sintagma, pode-se cair no erro de colocar o artigo logo após a palavra “liv”, que ficaria algo como *liv la mwen te achte anseye kreyòl.

         Toda a teoria da sintaxe (que estuda a formação das sentenças) é bem complexa, não é possível abranger tudo rapidamente, mas espero que essas informações já ajudem você na hora de colocar o artigo numa frase mais complexa. Faça uns exercícios clicando aqui. Até mais!

OBS: O link para os exercícios ainda não está disponível, mas será colocado em breve.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Provérbios haitianos: KOZE MANDE CHÈZ

        Já faz um tempo que temos a intenção de escrever sobre alguns provérbios haitianos. É uma aventura e tanto fazer isso, pois os provérbios e expressões idiomáticas fogem da fronteira da gramática. Ainda assim, aprender expressões idiomáticas e ditados da língua estrangeira que você está aprendendo é algo superimportante.

         Assim, convido os leitores a mandar os ditados, expressões, provérbios etc., que sabem em crioulo para compartilharmos entre nós! Será de grande ajuda a todos os que estão aprendendo essa bela língua.
         Hoje, especialmente, falaremos do seguinte provérbio haitiano:
KOZE MANDE CHÈZ
         Traduzindo teríamos algo como: “o caso pede cadeira”, ou seja, “senta que lá vem história”. É usado em ocasiões em que temos uma grande história/acontecido para relatar. Que tal pensar em maneiras de usá-lo para mantê-lo bem gravado?!
         Aproveito para agradecer a contribuição desse ditado à Aline, de Florianópolis, Santa Catarina. Mèsi anpil! E você, tem algum provérbio favorito? Mande-nos pelo e-mail aulasdecrioulohaitiano@gmail.com ou pelo Formulário de Contato aqui no blog.


Obs.: Mandem o provérbio/ditado, alguma explicação, se souberem, e seu nome e local, assim poderemos agradecer sua participação!

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Você pergunta, o blog responde: Jwenn? Twouve?


Um leitor perguntou: É possível usar “jwenn” no lugar de “twouve” quando a ideia é “achar” no sentido de “ter uma opinião sobre algo”?

Boa pergunta! Vamos à investigação para achar a resposta. Mas... antes... preciso relembrar algo.

Aqui no blog a maioria das pesquisas já conduzidas até hoje, que resultaram em muitos dos artigos que aqui estão, e muitos outros que estão em processo de investigação, baseiam-se no que chamamos de linguística de corpus. Ué, mas o que é isso?

De maneira simples: um corpus é um banco de textos extenso. Recolhem-se os textos em um determinado idioma e coloca-se esse conjunto de textos em programa de análise de corpus. Dentro desse programa é possível fazer investigações bem precisas, analisando, sobretudo, o contexto em que uma determinada palavra é usada, o que facilita o reconhecimento de padrões específicos no idioma, ou a falta deles. O programa não trabalha sozinho, é claro. Ele é apenas uma ferramenta que auxilia alguém com conhecimento em análises linguísticas.

Recorrendo à análise de corpus para responder à questão de nosso leitor, obtivemos rapidamente a seguinte conclusão: “jwenn” é “achar” no sentido de “encontrar algo físico”, ao passo que “twouve” é usado também no sentido de “achar” quando significa “ter uma opinião sobre algo”. Pronto! Questão respondida! Não... ainda não.

Nosso leitor disse algo que nos intrigou. Ele relatou que alguns haitianos estão usando “jwenn” no lugar de “twouve”. Por quê?! Será que os brasileiros estão influenciando o crioulo dos haitianos?! Responder a essa questão não é a tarefa mais fácil do mundo. Mostrou-se necessário, então, lançar mão de um outro método de investigação.

Esse outro método é típico da gramática gerativa. Ele visa à investigação de fatos linguísticos utilizando a própria intuição do falante. É verdade que linguística de corpus e linguística gerativa são coisas bem distintas, e muitas vezes “não se bicam”. Mas como linguística para mim não é religião, mas, sim, uma ciência, não tenho medo de aproveitar o que há de bom em cada uma das várias teorias. Assim, vamos à verificação de gramaticalidade utilizando a intuição dos falantes! Eba!

Antes de qualquer outra coisa: o que é gramaticalidade? Uma sentença “gramatical” faz parte da gramática da língua. Isso não tem a ver com certo ou errado, esqueçam a gramática tradicional. Nas frases abaixo, defina qual é “gramatical”, e qual é “agramatical”:

(a)              Os livros estão em cima da mesa

(b)             Os livro tá em cima da mesa

(c)              O livros estamos em cima da mesa

Tanto (a) quanto (b) são frases gramaticais da língua portuguesa. Somente (a) é aceita pela norma culta, mas como já disse, esqueça a gramática tradicional. A frase (c) é inaceitável em português, apesar de ser compreensível, ninguém falaria assim. Veja que “agramatical” não quer dizer “incompreensível”.

Para definir o que é gramatical e o que é agramatical no que diz respeito à alternância de “twouve” com “jwenn”, expusemos falantes nativos do crioulo haitiano a uma mesma frase em que se alternavam os usos desses verbos em questão.

A frase foi retirada de um livro em crioulo haitiano1. Nossa frase-modelo foi


Plizyè milyon moun twouve li enteresan pou yo sèvi ak metòd kesyon/repons lan lè y ap pale de Labib


         Lembre-se de que o objetivo era investigar a possibilidade de usar “jwenn” nesse contexto, em lugar de “twouve”. Essa pesquisa foi conduzida com a ajuda de voluntários em São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e no Haiti. Veja os resultados:

LEGENDA
sem marcação
: frase gramatical, aceitável
* (asterisco)
: frase agramatical, inaceitável
? (ponto de interrogação)
: frase duvidosa (alguns aceitam, alguns rejeitam)
*? (asterisco e interrogação)
: frase bastante duvidosa, aceitação baixa

Plizyè milyon moun twouve li enteresan pou yo sèvi ak metòd kesyon/repons lan lè y ap pale de Labib

Plizyè milyon moun twouve sa enteresan pou yo sèvi ak metòd kesyon/repons lan lè y ap pale de Labib     

?Plizyè milyon moun jwenn li enteresan pou yo sèvi ak metòd kesyon/repons lan lè y ap pale de Labib

*?Plizyè milyon moun jwenn sa enteresan pou yo sèvi ak metòd kesyon/repons lan lè y ap pale de Labib              

*Plizyè milyon moun twouve enteresan pou yo sèvi ak metòd kesyon/repons lan lè y ap pale de Labib              

*Plizyè milyon moun jwenn enteresan pou yo sèvi ak metòd kesyon/repons lan lè y ap pale de Labib

         Depois de analisar os resultados, chegamos às seguintes conclusões:

     Tanto o verbo “twouve” quanto o verbo “jwenn” pedem depois de si um pronome entre o próprio verbo e o adjetivo seguinte. Isso porque o pronome é o objeto do verbo, é imprescindível para a frase. O pronome pode ser também substituído por um substantivo, como “Mwen twouve liv sa a enteresan” (acho este livro interessante), ou “mwen twouve l enteresan” (eu o acho interessante). Mas nunca apenas “twouve enteresan”, “jwenn enteresan”. Outra coisa: esse objeto pode ser preenchido também pelo “sa”, se você não quiser usar o “li”. As frases com “jwenn”, no entanto, não foram rejeitadas de cara pelos falantes, é verdade. Mas com certeza tendem à agramaticalidade. Acredito que é por isso que não achamos um exemplo sequer de “jwenn” no lugar de “twouve” na língua escrita.

         Assim, é possível dizer que: usar “jwenn” no lugar de “twouve” é possível, mas é questionável, alguns falantes não se incomodam, outros vão torcer o nariz. Você quer mesmo que torçam o nariz para você? :P

         Até mais.

P.S.: Aproveito aqui para agradecer aos que colaboraram como pesquisadores ao entrevistar os haitianos.

1O livro mencionado é Ki sa Labib anseye toutbonvre ? publicado pelas Testemunhas de Jeová.

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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Preposições: POU

                Nesta nova série, Preposições, começaremos por uma bastante usada — pou.
                É muito comum ouvir que “pou” corresponde a “para” e nada mais. Simples assim. Mas... será que é só isso mesmo?
                Há pelo menos quatro preposições equivalentes a “pou” em português. São elas: a, para, por, de. Vejamos algumas frases-exemplo em que “pou” é usado com cada um desses siginificados.
A, PARA
                A preposição “a” e “para” estão bastante relacionadas e, modernamente, empregamos as duas sem distinção na maioria dos casos no português. Essas preposições têm um sentido ablativo, ou seja, de afastamento em relação ao sujeito da oração. Então o sujeito é o ponto de partida e o objeto se afasta dele, que vai em direção a outra pessoa (ou lugar).
                Um presente para você
                Yon kado pou ou
                O “pou ou” é, também, muitas vezes equivalente ao que pela tradição gramatical brasileira se chama “pronome possessivo”, que mais é um adjetivo possessivo. Portanto, numa frase como “Este livro pertence a”, “Este livro é de(o, a)” traduziríamos “Liv sa a se pou Bruno”, por exemplo. Literalmente seria “Este livro é para o Bruno”, ou seja, é dele.
                O “pou” pode ter também sentido adlativo, ou seja, em direção ao sujeito. Diferente dos exemplos que vimos agora, em que há uma sensação de afastamento em direção contrária ao sujeito, o “pou” pode ser usado também na seguinte ocasião:
                Comprei uma maçã para eu comê-la
                M te achte yon pòm pou m manje l
POR
                Às vezes “pou” terá o sentido de “por”. E isso é algo a que devemos prestar muitíssima atenção. Alguns verbos do crioulo estão cheiíssimos de armadilhas seriíssimas! rsrs.
                O que acontece é que muitos verbos têm transitividade diferente da dos verbos portugueses. O que é essa tal “transitividade”? De maneira simples: é o fato de o verbo pedir ou não complemento. Um verbo como “miar” (do gato), é intransitivo. Dizemos “O gato miou” e pronto, não falta nada na frase. Mas um verbo como “gostar” pede um complemento, afinal, quem “gosta”, “gosta de” alguma coisa! “Eu gosto de chocolate.” Veja que interessante! O verbo “gostar” além de exigir que se diga a coisa que você gosta, pede também a preposição “de”. Não se diz apenas “Eu gosto chocolate”.
                Vamos ao verbo “orar”. Em português, nós “oramos a Deus”, “para Deus”. A preposição é essencial. Mas em crioulo se diz apenas “Orar Deus”. O verbo priye (orar) não pede preposição!
                Eu oro a Deus todos os dias
                Mwen priye Bondye chak jou
                Mas, e se eu colocar o “pou”?! “Mwen priye pou Bondye”? Isso significa “Eu oro por Deus”. Será que Deus precisa que alguém ore a favor dele?! Então não use “pou”.
                Não é tão fácil saber e prever as diferenças entre o crioulo e o português nesses aspectos, mas fique atento ao ler em crioulo e seja observador na hora de comparar com o português. Isso o ajudará muito!
DE
                Por último, com alguns verbos, e, infelizmente, não é possível dar uma lista de todos, o “pou” significará “de”. Nesse caso, ele só terá sentido ablativo, ou seja, em direção contrária à do sujeito. Um exemplo é o uso de “pou” com o verbo “correr”, que é “kouri” em crioulo.
                Ao juntarmos esse verbo e essa preposição “kouri pou”, não temos o sentido de “correr para (em direção a)” mas sim o sentido de “correr de (distanciar-se de)” alguma coisa.
                Reflitam bastante nesses exemplos e pratiquem! Logo haverá uma atividade aqui para que pratiquem o uso do “pou”.
Babay!

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Você pergunta, o blog responde: "di ki sa..." existe?

Pergunta: É possível falar “Di ki sa w renmen?”? Vi isso na internet, mas não tenho certeza sobre ser correto esse uso. Podem escrever sobre isso? Obrigado.

Resposta:

Caro leitor, a frase como você a escreveu não é possível em crioulo. Não sei qual era o contexto, mas dá para afirmar que essa frase não é aceitável, a menos que seja uma afirmação. Se a intenção foi dizer “diga o que você gosta”, então ficará “di ki sa w renmen”. Mas se se refere à pergunta “do que você gosta?”, há apenas a opção “ki sa w renmen?”.

                Já comentei aqui no blog que línguas latinas não terminam frases em preposição. O crioulo tampouco permite isso. Assim, quando o verbo exige preposição, ela deve ser deslocada para o começo da frase como acontece em português. Veja:

(1-A) Eu gosto de queijo – Do que você gosta?

(1-B) Vou com a minha mãe para a festa – Com quem você vai?

                Em inglês — uma língua germânica, anglo-saxã — é possível terminar frase com preposição. Deste modo, uma frase como 1-B ficará:

(1-C) Who will you go with? (Quem você vai com?)

                A frase 1-C é impossível em português, o deslocamento de “com” é obrigatório. Do mesmo modo, em crioulo deve-se deslocar a preposição para o começo da frase, ficando:

(1-D) Avèk kiyès ou prale?

                Em crioulo, o verbo “renmen” (gostar) não exige preposição. Não se diz “gostar de alguma coisa”, mas apenas “gostar alguma coisa”. Portanto, não há preposição para ser deslocada, ficando:

(1-E) Ki sa w renmen? (Visto que o português exige a preposição, traduzimos por “Do que você gosta?”)

                Haverá casos, no entanto, em que “renmen” virá seguido de um outro verbo. Se esse verbo exigir preposição, deve-se colocá-la no começo da frase. Veja o caso de “pale” (falar).

(2-A) M ap pale de Labib (Estou falando da Bíblia)

                A pregunta, tanto em português como em crioulo, exige preposição:

(2-B) De ki sa w ap pale? (Do que você está falando?)

              Se eu fizer uma construção com perífrase, ou seja, usando dois verbos, e o último exigir preposição, deve-se colocá-la no início da frase também.

(2-C) Do que você gosta de falar?

              Veja que a preposição do verbo “gostar” está lá no lugar dela, após o verbo. A preposição do verbo “falar” não poderia ser o último elemento da frase, por isso foi deslocada para o começo. Em crioulo, a tradução ficará:

(2-D) De ki sa w renmen pale?

                A forma “di” só aparece com dois significados em crioulo: verbo “dizer”, e o adjetivo “difícil, duro”. Como preposição aparece justaposta a algumas palavras, por isso já não se considera mais uma preposição. Sua origem é do francês “du” da junção de “de + le”. Um exemplo é a expressão “dimaten” que significa “pelas manhãs, de manhã”. Era uma locução adverbial francesa que passou a advérbio em crioulo.

                Espero que a dúvida tenha sido resolvida, do contrário, não se esqueçam: vocês perguntam, o blog responde.

Estamos de volta, mas em outra plataforma!

  Como estão "zanmigos"? Estamos de volta, mas no Instagram:  https://www.instagram.com/aprendacrioulohaitiano?igsh=MXBkb2JmanRqeG...