segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Curso de crioulo haitiano na melhor Universidade da América Latina



Nos dias 3, 4, 5 e 6 de fevereiro foi realizado o curso Noções introdutórias da gramática do crioulo haitiano no prédio de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, FFLCH-USP.

O curso foi oferecido pelo Serviço de Cultura e Extensão Universitária da FFLCH-USP. O professor Bruno Pinto Silva, autor do blog Aprann Kreyòl Ayisyen e pesquisador do Departamento de Linguística da FFLCH-USP, ministrou o curso.

No primeiro dia do curso foram abordados temas como a história do país, da língua, e da cultura haitiana. Ao final do primeiro dia foram ensinadas as expressões mais comuns para cumprimentar, agradecer, e outras frases prontas comuns usadas ao se apresentar a alguém.

No segundo dia foram abordados alguns aspectos da pronúncia do crioulo haitiano. Deu-se ênfase a sons que são mais desafiadores para brasileiros. Também foram apresentados alguns fenômenos que podem ocorrer na pronúncia de brasileiros devido a diferenças na constituição da sílaba fonológica no crioulo haitiano e no português brasileiro.

No terceiro dia falou-se a respeito de aspectos da morfossintaxe do crioulo haitiano. Um dos temas abordados foi o morfema {la}, que é o artigo definido (singular) do crioulo haitiano. Viu-se como o morfema {la} se transforma em la, lan, nan, a, an dependendo do contexto fonético. Após entender as regras morfológicas por detrás do artigo {la}, mostrou-se como colocá-lo corretamente em um sintagma nominal.

No quarto e último dia foram exploradas questões de sintaxe, ou seja, a organização de uma sentença no crioulo haitiano. Foi possível fazer um contraste entre as estruturas do português e do crioulo haitiano, o que ajudou a ver em que aspectos as duas línguas diferem e como os alunos podem dar mais atenção a esses detalhes. Depois prosseguiu-se com a exploração da marcação de tempo e aspecto nos verbos do crioulo haitiano. Foram explorados também traços semânticos específicos de alguns verbos (e sintagmas verbais) que têm relação direta com a interpretação de tempo e aspecto no crioulo.

Muito do que foi discuto no curso já está disponível aqui no blog, seja por meio de artigos ou de cursos (veja a página Cursos). Alguns dos detalhes compartilhados presencialmente em breve se tornarão artigos aqui também, ou cursos.

Abaixo seguem fotos da turma!





Créditos das fotos: Ágatha Coloniese (Instagram: @fiandeyo)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

A preposição PA


Não param de chegar pedidos para que eu fale sobre quando PA é usado fora do contexto de negação. As pessoas geralmente perguntam qual é o outro sentido de PA. Aí é que se enganam. PA (marcador de negação) e PA (preposição) são duas palavras diferentes, não uma palavra com dois sentidos.

Uma palavra que tem vários sentidos é uma palavra polissêmica, o que não é o caso de PA. O caso de PA é de homonímia. O marcador de negação PA e a preposição PA são palavras homônimas. Palavras homônimas têm a mesma pronúncia, mas são escritas de maneiras distintas, como sessão, cessão, seção. Já no caso de PA, temos homônimos homógrafos, ou seja, além de terem pronúncias idênticas, são também grafadas (escritas) de maneira idêntica. O que nos esclarece que estas são duas palavras diferentes é a etimologia, isto é, a história da palavra.

PA como marcador de negação vem do francês pas, que também é lido [pa], apesar de haver um s na escrita. Esse s só é lido em contextos específicos no francês. A ortografia (as regras de escrita) do crioulo haitiano não aceitam essas letras que não são lidas. O princípio no crioulo haitiano é que a representação escrita da palavra deve ser bem semelhante à pronúncia, se se escrevesse pas, como em francês, seria necessário pronunciar esse s, e não é isso o que acontece. É assim que temos PA em crioulo, sem o s, simplesmente porque ele não é lido em francês, língua da qual vem o PA do crioulo.

PA como preposição vem do francês par, que também é uma preposição. No contato da língua francesa com as várias línguas africanas faladas pelos escravizados levados ao Haiti, resultou a língua que você está aprendendo, o crioulo haitiano. Dentre vários aspectos resultantes desse contato de línguas, a língua que surgiu, o crioulo haitiano, ganhou uma estrutura própria, que ora difere e ora se assemelha tanto ao francês quanto às línguas africanas que participaram de sua formação. Uma questão estrutural em que o crioulo haitiano difere do francês é o fato de que o crioulo haitiano não aceita /R/ no final de sílabas. É por isso que par virou PA em crioulo.

O resultado é que duas palavras diferentes em francês, pas e par, passaram a ter a mesma forma e a mesma pronúncia em crioulo haitiano. Aqui no blog já se falou do marcador de negação PA, você pode ver clicando aqui. Já falamos também a respeito da preposição POU, que você também pode ver clicando aqui. Hoje falaremos da preposição PA.

Veja as funções da preposição PA, e alguns exemplos:

  • Exprimir o AGENTE de uma ação, ou seja, aquele que a faz. Aqui a preposição equivale à preposição por.
Liv sa te ekri pa Pòl (Este livro foi escrito pelo Paulo)

  • Exprimir FREQUÊNCIA. Também equivale à preposição por.
De fwa pa semèn (duas vezes por semana) 

De fwa pa jou (duas vezes por dia)

  • Exprimir MULTIPLICAÇÃO e DIVISÃO
X miltipliye pa X (X multiplicado por X) 

X divize pa X (X dividido por X) 

  • Para exprimir DISTRIBUIÇÃO
De pa de (de dois em dois) 

  • Em algumas expressões fixas 

Pa egzanp (por exemplo) 

Pa kè (De cor) Ex.: Li konnen mizik sa a pa kè (ele sabe essa música de cor)

Pa konsekan (por conseguinte, portanto) 

Pa aza (por acaso) 

  • Como expressão enfática de posse
Zanmi pa m, kòman ou ye? (meu amigo, como você está?) 

Desta última construção já falamos em outra coisa aqui no blog, você ler mais clicando aqui


Por hoje é só. Espero que vocês consigam praticar agora o uso da preposição PA. Babay!

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

FALAR e DIZER - uma questão de telicidade


         Já passou da hora de abordarmos a diferença de falar e dizer. Graças aos leitores do blog que sempre mandam suas dúvidas, hoje vamos dar atenção a essa questão!

         Em português, falar e dizer muitas vezes podem aparecer no mesmo contexto e terão o mesmo sentido. Veja os exemplos (1) e (2).

(1)           Ele disse que quer aprender crioulo
(2)                       Ele falou que quer aprender crioulo

Em outros lugares não seria possível fazer essa troca. Veja os exemplos (3) e (4)

(3)                       Ele fala português comigo
(4)                       * Ele diz português comigo

Lembre-se de que o asterisco (*) é usado para marcar que a construção em questão não existe na língua. O exemplo (2) seria marcado com um asterisco em crioulo haitiano, pois não se pode falar que quer aprender crioulo em crioulo, só se pode dizer isso.

Falar em crioulo é pale. Dizer é di. Veja os exemplos abaixo:

(5)           Li te di li vle aprann kreyòl (tradução do exemplo (1))
(6)                       * Li te pale li vle aprann kreyòl (tradução literal do exemplo (2))

Só é possível o exemplo (5), o exemplo (6) não é possível em crioulo haitiano. Por quê? Agora chegou a parte legal! Vamos entender um pouco sobre telicidade. Vocês sabem que eu não resisto a usar nomes estranhos, né?

Pense nos seguintes verbos: fechar e cantar. São dois verbos que indicam ações bem diferentes, é verdade. Compare “fechar a porta” com “cantar uma música”. Consegue reparar que “fechar a porta” é uma ação que acontece e, pronto, acaba?! Nós podemos raciocinar da seguinte maneira: com o verbo fechar é possível visualizar o fim da ação.

Isso é bem diferente do que acontece com “cantar uma música”. Logicamente, a ação de cantar uma hora vai ter um fim, mas não é a mesma impressão que temos com verbos que indicam eventos tão pontuais como abrir, fechar e outros.

Verbos que indicam eventos tão pontuais (é feito e acaba, visualizamos o fim do evento), como nascer, morrer, fechar, abrir, são télicos. Já verbos como cantar, brincar, pensar, são atélicos.

Não vamos entrar em todos os detalhes técnicos, mas a telicidade (ser télico ou atélico) é uma propriedade não só do verbo, mas de todo o sintagma verbal, que é um conjunto formado pelo [VERBO + COMPLEMENTO]. É por isso que sempre devemos olhar para o todo. Desenhar um círculo é um evento télico. Você desenha e, pronto, acaba. Desenhar círculos é atélico. Você desenha, desenha, desenha... um dia acaba, mas a impressão do fim desse evento não é tão visível, por assim dizer.

Voltando à nossa questão central, podemos concluir que dizer é télico, e falar é atélico. A gente diz algo e pronto. A gente passa uma informação específica e acabou. Algo bem pontual. Tal pessoa disse tal coisa. Pronto. No caso do verbo falar, a gente fala uma língua, que dá a noção de saber uma língua. Mas também a gente fala sobre coisas diversas. A gente fala sobre o Haiti, por exemplo. A ação de falar sobre o Haiti envolve uma fala com detalhes sobre o país, a cultura desse país, a língua desse país. Algo que um dia acaba, é verdade, mas não é tão breve quanto dizer que o Haiti tem o crioulo como língua oficial. Isso se diz e pronto. Acabou.

De modo geral, se na frase em português for possível trocar o verbo falar por dizer, deve-se usar o verbo dizer (di) no crioulo haitiano. Essa é uma forma rápida de saber o que usar. Mas não se esqueça da questão da telicidade.

Espero que depois de ter lido este artigo você não diga: o Bruno falou, falou e não disse nada.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

LADAN — entenda melhor esta preposição


Olá! Vamos entender melhor a preposição LADAN? Mas... “landan” não seria um advérbio que corresponde a “dentro”? Mais ou menos. Hoje vamos entender isso melhor.
         Ladan é uma preposição que pode dar a ideia de “dentro”, ou “nele, nela” (em + ele, ela). A verdade é que não há como relacionar “ladan” tão diretamente a algo no português.
         O que nos interessa saber é que ladan é uma preposição, e sempre devemos usar um pronome de 3ª pessoa (plural ou singular) após esta preposição. Isso significa que sempre teremos “ladan l” ou “ladan yo”. Por quê? Simples: usamos “ladan” quando estamos nos referindo a algo que já foi mencionado. Veja as frases abaixo:

(1)
bwat sa ai  gen     yon       kado         ladan li
esta caixa   tem     um        presente   dentro (dela)
Há um presente dentro desta caixa

         O sentido de “dentro” sempre está presente, mas nem sempre a palavra “dentro” fará sentido na tradução:

(2)
Mwen te        nan   yon   reyinyoni e    m  te        patisipe      ladan li
Eu       PASS  em    uma  reunião    e    eu  PASS  participar   dela
Eu estava em uma reunião e participei dela

(3)
Bib lai     gen   istwa        Jezi           ladan li
a Bíblia   tem   história    Jesus        nela
A Bíblia tem a história de Jesus (nela/dentro dela)

           Veja que o ponto em questão é: para usar “ladan” é necessário estar retomando algum outro termo, ou trecho, que já foi mencionado. Mesmo que a menção tenha sido feita em outra frase, ou feita por outra pessoa que esteja participando da conversa. E se quisermos mudar a ordem da frase-exemplo (1) e dizer: “Dentro desta caixa há um presente”? Não será possível usar “ladan”, será necessário dizer “anndan” que é o verdadeiro advérbio dentro.

(4)
anndan   bwat sa a      gen   yon  kado
dentro    esta caixa     tem   um  presente
Dentro desta caixa há um presente

           Ladan yo aparecerá quando se tratar de plural. Veja (5).

(5)
bwat sa yoi    genyen   anpil     kado             ladan yoi
estas caixas   têm         muitos  presentes     nelas/dentro delas
Há muitos presentes dentro dessas caixas

           No próximo artigo entenderemos melhor a preposição LAKAY!


Observações:
O “i” subscrito (i) indica que os dois termos têm ligação, ele é mencionado uma primeira vez e é retomado com um pronome mais à frente.
A abreviatura PASS aqui faz referência a PASSADO.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Você conhece as preposições “vè” e "anvè"?

A preposição “vè”, no crioulo haitiano, vem do francês vers.

Podemos associar a preposição “vè” à locução prepositiva “por volta de” em português. Assim, o sentido de “vè” é de estimativa, em especial quando falamos de uma hora específica ou de uma data. Veja abaixo duas frases-exemplo.

(1) M ap retounen uitè diswa (Vou voltar lá pelas/por volta das oito da noite)

(2) Li te fèt premye oktòb (Ele nasceu por volta de primeiro de outubro)

A preposição também aparece combinada à preposição an, formando “anvè”, que geralmente corresponde a “para com” ou “em relação a” em português. Veja no exemplo (3).

(3) Bondye bon anvè tout moun (Deus é bom para com todos)

Não confunda a preposição com dois outros substantivos homônimos. , em outros contextos, tem os seguintes significados:

1: recipiente geralmente cilíndrico usado para consumo de líquidos, copo;

2: designação comum e imprecisa a todos os animais alongados de corpo mole, verme.

Tem dúvidas de crioulo haitiano?! Não deixe de escrever para nós ou deixar suas dúvidas nos comentários!

quinta-feira, 16 de maio de 2019

POKO, POTKO — Você pergunta, o blog responde


Uma leitora quer saber: qual é a diferença de POKO e POTKO?

         Em primeiro lugar é preciso lembrar que a tradução de POKO e POTKO é AINDA NÃO. Assim, qual é diferença? POKO se usa quando a ação expressa pelo verbo ainda não foi completada. Por exemplo: Mwen poko manje = Eu ainda não comi. A ação de comer ainda não foi realizada.

         No caso de POTKO, o verbo estará no passado imperfeito ou mais-que-perfeito, e a ação já terá sido realizada. Isso quer dizer que quando temos ainda não + verbo que acabe em -ia (não -ria!) ou -va ou então tinha/havia + particípio (formas terminadas em -ado, -ido) teremos o potko em crioulo. Veja abaixo...

Eu ainda não sabia.... = Mwen potko konnen...
Eu ainda não tinha chegado... = Mwen potko rive...

         Veja que se você ainda não sabia é porque agora você sabe. E se você ainda não tinha chegado, agora você já chegou. Desse modo, o potko indica que em algum tempo passado tal coisa ainda não tinha acontecido, mas agora já se realizou.

         Espero que a dúvida tenha sido esclarecida, se não foi, só perguntar novamente, e o blog responde!

quinta-feira, 7 de março de 2019

Será que ASISTE é ASSISTIR?


Vamos falar de Semântica? Essa é a matéria que estuda o significado, para ser bem simplista. E hoje lidaremos com o sentido de ASISTE em comparação com ASSISTIR. Em português, “assistir” pode significar também “dar auxílio”, mas não é desta definição que vamos tratar.
         Antes de entrarmos em detalhes, vou reproduzir abaixo uma conversa que presenciei entre uma brasileira e uma uruguaia alguns anos atrás.

(Uruguaia aparece com um caderno novo)
Brasileira: — Você comprou esse caderno?
Uruguaia: — Não.
Brasileira: — Você ganhou, então?
Uruguaia: — Não.
Brasileira: — Você roubou, então?!
Uruguaia: — Não! De jeito nenhum! Foi o Davi que me deu o caderno!
Brasileira: — Então você ganhou! Por que você não disse quando eu perguntei?
Uruguaia: — Mas eu não ganhei, o Davi me deu!

         O que aconteceu nessa conversa é que o que se entende por “ganhar” no português e no espanhol tem proximidade, mas não é a mesma coisa. Em espanhol, GANHAR implica fazer algum esforço do qual resultará um prêmio. No português, além desse sentido, pode ser simplesmente “receber algo como presente”. Pronto! Duas línguas tão próximas, duas palavras tão parecidas, mas o significado delas na percepção de cada um dos falantes tem aspectos que causam essa grande confusão!
         Isso nos mostra que temos que investigar bem os contextos em que uma determinada palavra pode ser inserida numa língua estrangeira. Veremos que esse é o caso de ASISTE.
         ASSISTIR é um verbo que concorre com verbos como ACOMPANHAR, ou VER em frases do tipo: “Veja/Acompanhe/Assista (a) esse vídeo”. Mas em crioulo (e também em espanhol!) ASISTE implica estar presente, comparecer a um evento. Sim! Isso mesmo que você entendeu: não dizemos ASISTE YON VIDEYO. Em vez disso, dizemos GADE YON VIDEYO, SUIV (ou, swiv) YON VIDEYO.
         Podemos usar ASISTE da seguinte maneira:
(a)     M te asiste yon reyinyon (Assisti/Compareci a uma reunião)
(b)      Li pral asiste yon kongrè (Ele assistirá/comparecerá a um congresso).
Resumindo: usa-se ASISTE que você quer dizer comparecer, estar presente em. Usa-se GADE ou SUIV se você quer pedir que alguém acompanhe um vídeo, por exemplo.

Estamos de volta, mas em outra plataforma!

  Como estão "zanmigos"? Estamos de volta, mas no Instagram:  https://www.instagram.com/aprendacrioulohaitiano?igsh=MXBkb2JmanRqeG...